20.11.18

 

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Já há algum tempo que aqui não vinha. Não por falta de assunto ou vontade de escrever (OK, às vezes por este último motivo), mas porque quando começo a escrever este tipo de textos tem de ser de uma vez só; e o normal é começar a debitar ideias, depois faço outra coisa qualquer entretanto, surge-me mais uma tarefa e quando vou a pegar no texto novamente já não vai com o mesmo rumo que ia anteriormente. Mas de vez em quando sinto alguma vontade de aqui acrescentar mais um post. Afinal de contas, comecei esta coisa em 2005 (!) e custa-me vê-lo abandonado. Mas não interessa, para variar um bocado estou a perder-me em rodriguinhos. Prossigamos.

Há muito que deixei de acreditar num plano superior que nos recompense pelos nossos bons actos em vida e nos castigue pelam merda que fazemos durante o tempo que estamos vivos. Isso pressuporia que o Universo é um lugar bom e justo – e acho que todos nós já nos apercebemos que é tudo menos isso. Pode-se dizer "ah, não sabes se isso é mesmo assim", e é verdade: normalmente quem parte nunca volta para nos dizer que se passa (o que por si pode querer dizer alguma coisa).

Pensando um bocadinho… se apenas fazemos o Bem para que possamos vir a ser recompensados no Outro Mundo, isso não faz de nós, seres humanos, egocêntricos e interesseiros? O que talvez justifique o porquê da criação desse mito: se não houvesse a promessa de uma possível recompensa futura, nós seríamos ainda mais ruins do que o que somos habitualmente.

Quando vemos uma pessoa acamada, em estado vegetativo ou similar, dependendo do que foi a sua vida, há quem diga que "está a pagar pelos pecados em vida, enquanto não os pagar todos fica ali preso/presa naquele corpo" – o que acaba por contrariar um bocadinho a tese do Inferno depois da morte, pois assim ia logo directa lá para baixo sem causar dor aos familiares que cá ficam. Mas e se a pessoa em questão não tiver sido má pessoa, se sempre se tiver comportado de forma correcta, tentando melindrar o mínimo de pessoas possível (enquanto essas mesmas pessoas a iam enrolando vez após vez), sempre de acordo com a lei da religião e sendo sempre temente a Deus… qual é a justificação para sofrer esse castigo? Terá a entidade divina vontade de fazer aquela pessoa sofrer um bocadinho antes de a acolher no Reino dos Céus – o que significaria que é um sádico de primeira apanha – ou significa, pura e simplesmente, que o Universo é um lugar aleatório, sem qualquer balança cósmica e onde não há recompensa para os bons nem castigo para os maus? Depois começam as disxussdis sobre o que é considerado "bom" e o que é "mau". Se uma pessoa A mata um animal para salvar a vida de outra pessoa B, pode haver quem ache que a pessoa A é uma pessoa boa pois conseguiu salvar a vida de alguém, mas decerto – e cada vez mais nos dias que correm… – haverá quem grite que a pessoa A é um canalha e um assassino porque matou um ser vivo, um ser irracional que, quem sabe, poderia estar apenas a defender o seu território e que pode ter condenado à morte também supostas crias desse animal. São enormes argumentações metafísicas para as quais não tenho estômago nem paciência, pois normalmente nessas coisas há sempre extremistas e eu tenho um pó bruto a essa raça.

Nestes textos, eu acabo sempre por fazer imensas perguntas para as quais não tenho resposta. Nem espero. Como diz o título aqui da xafarica, isto são disfunções mentais, devaneios de um tipo que não tenta evangelizar ninguém mas que odeia que o tentem evangelizar seja sobre o que for. Um parvo pouco chato, em teoria.

disfunção original de Rodolfo Dias às 09:52

16.10.17

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Uma enorme revolta se apodera de mim ao ver o que se passa no panorama dos incêndios. Depois de Pedrógão Grande, seria de esperar que as altas instâncias tivessem aprendido qualquer coisa - ou pelo menos que não cometessem os mesmos erros. E que, ao verem as previsões meteorológicas, se preparassem para um dia que se adivinhava complicado.

Logicamente, tudo voltou a falhar. E por isso, num dia extremamente quente com vento forte, tivemos o que foi considerado o pior dia dos incêndios. Tínhamos - e temos - aldeias, vilas e cidades - Braga, por exemplo - com labaredas à porta - e em Gouveia já arderam prédios - e já há vítimas mortais confirmadas, auto-estradas cortadas, linhas férreas paradas com comboios detidos em estações sem transbordo nem informações. Obviamente que há mão criminosa em 95% destes incêndios, de tal maneira que já foram apanhados alguns em flagrante e há relatos de malta no Oeste em motas a ateá-los. Mas tão criminosos como os que ateiam, são os que permitem esta situação, este caos nos meios. É perfeitamente inconcebíbel ter a Ministra da Administração Interna a chorar lágrimas de crocodilo como se isso resolvesse alguma coisa, como se a única coisa que interessasse fosse mostrar-se preocupada e solidária e blá blá blá com as vítimas. É perfeitamente inconcebível que o Secretário de Estado da Administração Interna diga que têm de ser as pessoas a combater os incêndios, não se pode esperar que sejam os bombeiros e os aviões a fazê-lo. É perfeitamente inconcebível que no Orçamento de Estado para 2018 esteja contemplada a redução das verbas para os bombeiros, preferindo prioritizar-se a subida dos salários. Num país como deve ser, a carreira destas pessoas e de todos os responsáveis políticos, independentemente da cor política, teria a sua carreira terminada - e sem direito a regalias futuras.

Pedrógão Grande nunca se deveria de repetir. E a verdade é que não se repetiu - o que estamos a assistir hoje é bem pior. Quer dizer... a assistir, salvo seja: é que os canais de informação portugueses não querem saber disto, preferindo transmitir os debates deprimentes sobre futebol. Quem quiser saber o que se passa com os incêndios vai ter de meter na CMTv, o eterno canal "nojento" e "sensacionalista".

Dói-me o coração. Que São Pedro nos ajude - e eu não sou religioso.

disfunção original de Rodolfo Dias às 00:02

15.03.17

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Sim, mais um post sobre a desertificação.  E então?
Muita gente que habita nas imediações de Lisboa (qualquer grande cidade, na realidade, mas apetece-me implicar com os lisboetas, e agora?) entraria em pânico se precisasse de ir a um supermercado e este se situasse a uns 30 km de distância. Ou se tivesse um problema de saúde súbito que fosse necessário ir às urgências do hospital e estas estivessem localizadas a uns 70 km. E, todavia, existe muito boa gente que vive nessa realidade, em diversas zonas afastadas dos grandes centros de decisão; uma dessas zonas é aqui em que neste momento me encontro, nos confins do concelho de Odemira. Talvez esta fosse a zona a que o ex-ministro Mário "Jamé" Lino aludia quando se referiu ao "deserto". Sim, já sabemos que o interior está despovoado e ao abandono, que as vias de comunicação são de "passagem por" e não de "paragem em", que não há investimento suficiente para fazer as pessoas fixarem-se a estes meios pequenos. Então qual a solução? Deixar-se morrer quem ainda aqui vive e termos "aldeias-fantasma" à laia de atrações turísticas como hoje já temos as ruínas romanas, árabes e pré-históricas? Deixar que tudo isto se transforme num deserto como o do Sahara?
Só que ao mesmo tempo vem o reverso da medalha: como é que se convence alguém a investir nos meios rurais? Qual é a empresa que vai arriscar estabelecer-se num meio com pouca gente sabendo que todos os meios que necessita (matéria-prima, mão-de-obra) se encontram em quantidade insuficiente nas imediações? Só com grandes incentivos do Estado é que pode haver alguém a pensar nisso, o que não é solução, pois os cofres estatais não servem propriamente (ou não deviam servir) para esse tipo de coisas.
Então qual a solução? Pois, essa é que é a pergunta dos 50 mil euros. Mas "deixar morrer" é a solução que mais me revolta...

disfunção original de Rodolfo Dias às 10:35

15.10.16

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Ultimamente, por motivos pessoais, tenho ido bastantes vezes à terrinha – que para quem ainda não sabe, é no sudoeste do Baixo Alentejo. E como a malta até é um bocado avessa a pagar portagens, a esmagadora parte do percurso é feita pelo IC1, apesar do troço Palma – Nó de Grândola estar um autêntico nojo. E, aos sábados de manhã, é normal passar por uma pessoa que me deixa bastante envergonhado comigo mesmo.

Não sei como se chama, não sei quem é, e não sei como lhe hei-de chamar; ainda assim, apelidei-o de "paraciclista". É uma pessoa (não sei se é homem ou mulher) que, pelo que me é dado parecer, não tem uma ou as duas pernas na sua totalidade; todavia não deixa que isso a impeça de andar na estrada: pedala com as mãos, não com aquelas bicicletas com que se costuma ver os atletas paraolímpicos, mas com uma outra em que vai deitada de barriga para cima, paralela ao chão; logicamente, para não correr o risco de não ser visto por algum carro, tem uma bandeirinha laranja atrás. Todos os sábados em que tenho feito a viagem, de manhã, o encontro a uma boa velocidade por esse IC1 fora.

E agora a pergunta que talvez alguém esteja a fazer: "porque é que essa pessoa te deixa envergonhado contigo mesmo?" Pois, porque eu sou uma autêntica batata de sofá (traduzindo do original inglês), que já não corre atrás de uma bola de futebol há una doze anos e que só pedalava nas bicicletas do ginásio quando lá estava inscrito… e não tenho grande vontade de retomar actividade física. Quer dizer: andar, ando, faço caminhadas e já cheguei a fazer quase uns 20 km debaixo de Sol abrasador. Todavia mais que isso já não estou para me maçar… e cruzando-me com uma pessoa fisicamente limitada que faz das fraquezas forças e que não se deixa deter pela infelicidade faz-me sentir que eu é que sou, de facto, o limitado. E que a limitação está é nas nossas cabeças.

(Não vou falar dos atletas paraolímpicos senão sinto-me ainda mais pequenino e insignificante)

disfunção original de Rodolfo Dias às 17:46

26.07.16

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O texto que segue talvez tenha tiques de parvoíce. Mas como o espaço é meu e eu coloco aqui o que me der na real gana, que se lixe. Além do mais, como estou a atravessar uma fase algo negativa, nada como dar asas à escrita para distrair.

O Rodolfomobile morreu. Aquele "Ferrari dos pobres" que me acompanhou durante os últimos oito anos por essas estradas nacionais percorreu o seu último quilómetro e partiu rumo a esse ferro-velho celestial para onde vão os carros quando chegam ao fim da vida. Alguns de vós poderão achar que isto é demasiado parvo e que um carro, qualquer carro, não merece tamanha pieguice, mas... nunca se esquece o nosso primeiro. Seja lá o que for o assunto, seja a primeira vez que tivemos intimidades com uma rapariga, a primeira vez que fomos trabalhar. E o Rodolfomobile foi o meu primeiro carro. Um Seat Ibiza Mk. 1 de 1988, preto, quadradão, que fora de um tio meu e que o meu pai depois "reencaminhou" para mim. Chegou-me às unhas com cerca de 85 mil quilómetros percorridos (sim, durante a vida nunca teve muito uso), faleceu com mais de 144 mil. Era um carro que deu problemas ao nível do radiador e que demoraram anos a ser resolvidos (apesar de nunca a 100%), sem ar condicionado nem vidros eléctricos e, durante algum tempo, sem ar quente no habitáculo - o que significava que viajar nele durante o Inverno era um castigo. Tinha uma ponteira da direcção que fazia banzé sempre que se arrancava em curva, o vidro da porta traseira do lado esquerdo não abria, a alavanca das mudanças tinha um buraco no centro da "maçaneta" devido ao Sol ter queimado o plástico todo. E, mesmo assim... tinha carisma.

O Rodolfomobile não era só um carro, foi um companheiro insaciável de muitas viagens e aventuras (insaciável pois tinha um apetite voraz por gasolina que quase trinta anos de vida não conseguiram diminuir, antes pelo contrário). Levou-me de férias para a terra incontáveis vezes, de férias para outros lados, atrás de comboios, de casa para o trabalho e de regresso, levou-me à descoberta de centenas de marcos quilométricos, levou-me ao encontro das pessoas que amava, levou-me inclusivamente algumas vezes ao Céu. Em oito anos, fiz com ele o que qualquer um fez ou deve ter feito com o seu primeiro carro. E... não vou mentir: tinha a secreta ambição de o conseguir preservar, restaurando-o até ficar quase como novo - mas a vida nunca mo proporcionou, nunca consegui ter finanças para começar esse projecto. E, há dias, isso tornou-se inviável, com um ataque cardíaco fulminante que o deixou em coma irreversível. Perante os factos, e com enorme pena minha, nada mais houve a fazer senão desligar-se a ficha e proceder-se aos arranjos para o funeral. Neste momento, o Rodolfomobile ainda poderá existir, mas já apenas como um monte de ferro-velho, uma carcaça já sem algumas peças, ou algo intermédio.

Neste momento, a busca para um substituto já começou, e até pode ser que o escolhido seja um carro muito melhor, muito mais confortável, com ar condicionado, vidros eléctricos e essas coisas todas. Pode ter isso tudo - mas não terá o carisma do Rodolfomobile. Aquele carro tinha uma identidade própria, coisa que os carros de hoje em dia já não possuem, todos cheios de electrónicas e computadores e cinzentismo.

Já tenho saudades do Rodolfomobile.

disfunção original de Rodolfo Dias às 19:50

18.05.16

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Vou retornar a um assunto que já abordei faz tempo. Bastante tempo, ao que parece. Isto porque em onze anos nada mudou.

Ao longo da história, a freguesia de São Martinho das Amoreiras tem andado a balançar entre dois municípios, o de Odemira e o de Ourique. Eventualmente, acabou por se tornar parte integrante do primeiro. Infelizmente.

Infelizmente porque o “maior concelho de Portugal” possui uma câmara que enche a boca para falar do seu tamanho mas que depois apenas se foca naquela faixa litoral que vai de Vila Nova de Milfontes a Aljezur, pejada de praias e que é um pólo de atracção para o turismo. E, desde os tempos que me lembro, as atenções que a cúpula camarária tem deitado ao restante território têm sido mínimas ou inexistentes – o que levou a que a vasta maioria do concelho esteja, na sua esmagadora maioria, votada ao abandono. E nem mesmo assim as pessoas e partidos que passam pela Câmara Municipal se movem para tentar dar condições de vida às poucas pessoas que ainda habitam nas freguesias interiores do concelho de Odemira. Claro, as aldeias e lugares possuem estradas alcatroadas, luz eléctrica… mas e as pessoas que não habitam nas aldeias e lugares? E quem vive no seu monte? Não é um ser humano como os habitantes do litoral? Não paga IMI como os do litoral? Como se justifica que, em 2016, ainda haja pessoas sem acesso a algo tão básico como a electricidade apenas e só porque a autarquia não está para gastar 50 mil euros para levar a luz à casa das pessoas? Em vez disso, colocou painéis solares nos montes das pessoas que ainda residem nos confins do concelho, o que seria algo de muito justo e nobre e uma alternativa viável… se a luz solar instalada tivesse potência para se ligar um frigorífico ou uma máquina de lavar roupa, ou se fosse possível ter mais do que uma tomada em toda a casa, o que não é o caso. Resultado? Quando há Sol, pode-se estar relativamente à vontade, ver-se um pouco de TV, mas nos dias mais cinzentos ou invernosos tem de se ter cuidado com a racionalização da luz: apenas para a iluminação.

Em Ourique, foi agora concluída a electrificação de duas zonas do concelho, onde foram gastos 75 mil euros no total. No concelho vizinho sempre houve muito a política de fazer, mesmo sem dinheiro (e daí terem acumulado uma dívida brutal, da qual têm estado a recuperar), enquanto em Odemira nunca se fazia porque “não havia dinheiro”; ironicamente, em 2014, a dívida odemirense era superior à de Ourique. Por causa desta diferença de filosofias camarárias é que o nível de vida dos habitantes do concelho de Ourique é bastante superior ao dos de Odemira. Por isso é que, voltando acima no texto, ainda temos habitantes da freguesia de São Martinho sem acesso a electricidade mas com “vizinhos” a um quilómetro que dispõem dessa mais-valia. Da última vez que a electricidade foi espalhada por mais uns montes ao redor do lugar da Corte Malhão, chegou-se ao cúmulo de se levar o cabo à porta de montes abandonados e em estado de ruína… enquanto outras casas habitadas eram ignoradas. E anda-se nesta batalha há mais de vinte anos, com quilos e mais quilos de promessas adiadas, pedidos arquivados, favores esquecidos. Apenas na altura das eleições se garante que “a electricidade vai chegar a todo o lado do concelho”, todavia isso nunca se chega a verificar.

O lema do concelho de Ourique é “por Ourique, pelos ouriquenses”; e o de Odemira, como será? “Pelo Litoral, pelos habitantes do litoral”?

disfunção original de Rodolfo Dias às 21:05

10.04.16

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Há coisas que são mais fortes que nós. Que, por mais força que façamos, não conseguimos alterar e ser de outra maneira.

Cada um tem os seus rituais quando assiste a um jogo de futebol da sua equipa – não me digam que não. Ou usar sempre a mesma peça de roupa, ou ir sempre da mesma maneira ao estádio, ou comer a mesma coisa antes do jogo, todos nós (ou muitos de nós, vá) temos aquela superstiçãozita que acreditamos que dá sorte antes de qualquer partida. E eu não sou excepção – o que, per se, é estúpido pois eu não sou supersticioso… excepto no que respeita ao futebol. E, por muito pouco que demonstre, sofro demasiado com a puta merda da bola. De tal forma que a minha superstição é não ver o jogo, isolar-me de tudo e todos, desligar telemóveis e apenas regressar ao mundo quando tiverem passado duas horas do início do jogo. O que, esta temporada, até tem dado frutos – ou por outra, quando quebrei esta rotina a coisa deu merda. No Benfica - Sporting para o campeonato fui arrastado para o Almada Fórum, no Benfica - FC Porto tive um jantar. E como, quando faço este ritual a coisa até nem tem corrido mal, vai-se continuando.

Ontem lá tive de quebrar a rotina mais uma vez. Tive de ir ao Alentejo ajudar na animação de um serão nos confins do concelho de Odemira, portanto o isolamento estava fora de questão. A casa em questão não tinha Sport TV, o que era uma benesse, mas estava rodeado de benfiquistas sempre a falar no jogo e preocupados com o resultado. Para piorar a situação, enganei-me na hora de jogo e, quando dei por ela, o telemóvel já tinha recebido a notificação do golo da Académica… tornando impossível qualquer ideia que eu pudesse ter de me isolar. Talvez pudesse e devesse ter ido à procura de um café com a TV do Oliveirinha, mas eu vivo na convicção que o meu coração há-de ceder quando eu estiver a assistir a um jogo do Benfica, por isso nem me mexi – a não ser ser para mudar a mão da qual estava a roer as unhas até aos cotovelos. Ufff, do mal o menos, o Mitroglou marcou dali a bocado e o jogo chegou ao intervalo assim, informação que passei a quem estava ali ao pé também. Segunda parte e a hora de jantar a aproximar-se, com uma mudança de metade das cordas da viola pelo meio (mau estado obligée). E sempre que podia, lá ia ver se havia uma notificação nova no telemóvel…

Faço aqui um parênteses para falar da cobertura móvel no concelho de Odemira. Um nojo. Seja qual for a operadora, apesar da Optimus NOS ainda conseguir ser a menos ruim. Quem passa a vida a apregoar “cobertura em 100% do território nacional” devia ter uma avaria no carro aqui na zona e depois tentar entrar em contacto com ajuda. Miserável, miserável. Anda-se tão preocupados em arranjar telemóveis 4G à malta e nem se preocupam em disponibilizar sequer 1G ou 2G em algumas zonas do país? Isto tudo porque a cobertura da rede onde eu estava era má (no mínimo) e houve alturas em que não chegava nada, nem os dados do jogo actualizavam, tudo enquanto o telemóvel andava a saltar do ‘H’ para o ‘3G’ e vice-versa.

Continuando… a operação na viola foi sendo feita com um nó na garganta e mãos congeladas, tudo porque não surgiam notícias de Coimbra nem aparecia um apito a assinalar golo de alguém. Até que, depois de mais uma corda metida e de já se estar nos finalmentes da operação, vou ver o telemóvel, está lá uma notificação e é o 1-2! Imediatamente levantei os braços no ar e soltei um suspiro de alívio, as probabilidades de aqueles rapazes continuarem na liderança aumentara exponencialmente – o que, minutos depois, se confirmou. Foi como se um peso de 16 t me tivesse saído de cima da cabeça.

Há quem leia isto (LOL) e me considere um “falso benfiquista” (não seria a primeira vez) por andar arredio dos estádios (náo ter fonte de rendimentos também não ajuda) e nem ver ou ouvir (algo que fazia sempre) os jogos. Já estou naquela fase em que me estou a cagar para as opiniões alheias: vivo e sofro pelo Benfica à minha maneira e não me considero nem mais nem menos benfiquista por isso. E quarta-feira vou-me voltar a enfiar na caverna – isto se não tiver planos.

disfunção original de Rodolfo Dias às 10:20

17.03.16

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Devia falar por aqui mais vezes, é um facto. Mas o Facebook rouba-me a vontade de vir largar aqui postas. Não que passe a vida lá enfiado, atenção; todavia, tropeço em algo que me faz rir no dia-a-dia e acabo por despejar lá, escrevo uma frase ou duas e pronto. Mas desta vez vou forçar-me aqui, a escrever o que me deixou na necessidade de disfuncionalizar um bocadinho (esta coisa de inventar palavras é muito in, não é?).

Hoje, pela primeira vez na minha vida, presenciei um capítulo de uma batalha pelos direitos parentais de uma criança. E confesso que não gostei do que vi - se calhar acho que qualquer um não gostaria... mas abordemos o assunto com o máximo de precaução para tentar não ferir susceptibilidades (que hoje em dia temos de ser politicamente correctos ao máximo senão em menos de nada temos uma multidão à nossa porta com archotes e forquilhas pronta a linchar-nos).

Hoje fui ter com uma amiga (chamemos-lhe Filipa, um nome fictício) - sim, eu tenho amigas do sexo feminino. Depois de alguma conversa, acompanhei-a para ela ir buscar o filho à família do pai da criança, pois, depois do nascimento do rebento, pai e mãe desavieram-se e separaram-se, como tantos casais por esse mundo fora, e agora não se podem ver sem começarem a discutir, mesmo com os membros da família do ex-conjuge. A coisa tomou contornos de tal forma que a justiça já está metida ao barulho e está acordado que cada pai pode passar um fim-de-semana com o filho, indo-o buscar a determinada hora. E hoje foi o dia de Filipa ir buscar a criança.

Se todas as coisas corressem bem, à hora regimental, a criança estaria pronta para ir com a mãe; todavia, devido a alguns problemas (quem sabe derivados de toda esta situação), ela anda na terapia da fala. E assim que chegámos (com um ligeiro atraso, admito), a criança ainda não estava despachada, pois a consulta da terapia acaba à hora a que a custódia troca - aparentemente. Durante o tempo de espera, Filipa, que é uma rapariga de "pelo na venta", esteve na rua, a mandar vir com o Universo, a mandar bocas alto e bom som - que as pessoas que estavam em casa decerto ouviram.

Quase meia-hora depois da hora prevista, aparece o carro com a criança, o pai, o avô e a companheira actual do pai. E logicamente começa um bate-boca por causa do atraso, por causa do comportamento de Filipa, dos direitos de cada um, olharam o meu carro a pente fino, perguntaram-me onde tinha a cadeirinha, ao verem que não tinha armaram (ainda mais) um pé de vento para que eu não os levasse no carro, e quando Filipa se resolveu a levar a criança consigo e ir de transportes para casa (tendo de apanhar autocarro, comboio e autocarro para lá chegar) anunciaram alto e bom som que me iam seguir para garantirem que eu não lhes iria dar boleia. E, efectivamente, depois de Filipa ter abalado a pé com a criança rumo à paragem do autocarro, durante um bocadinho tive um carro atrás de mim - e, para não chatear mais os senhores, pois eles pareciam estar chateados, até fiz questão de esperar por eles. Um pouco mais à frente, virei para um lado e eles seguiram para o outro. Enquanto eu dava uma volta a uma rotunda (porque, a bem dizer, eu me enganei no caminho), vi o carro dos familiares do marido já a voltar para trás e duas pessoas - o pai e a namorada - a correrem desabridamente rumo a um ponto desconhecido. E assim acabou aquele momento de tensão... pelo menos para mim. Segundo vim depois a saber, o carro com o avô da criança entreteve-se a seguir o autocarro onde seguiam Filipa e a criança até à estação do comboio, ficando na zona envolvente à espera que eles entrassem no comboio.

Bom, isto agora é tudo muito giro de ler e debater e pensar. Todavia, como eu disse ali em cima, esta foi uma batalha de uma guerra que terá sempre uma vítima: a criança. Por muito que se tente escudar e proteger os filhos das discussões e zangas e birras entre membros familiares, eles apercebem-se de tudo e acabam por sair magoados. Ao mesmo tempo, é triste ver que aquela criança é "usada" como arma de arremesso para um lado tentar levar a melhor um sobre o outro. Todos querem o melhor para a criança, acham (ou dizem) que o seu lado poder-lhe-á dar tudo o que ela necessita para ser feliz; todavia parecem contentar-se mais em fazer os possíveis para que quem está do outro lado sofra a pena de perder todos os direitos parentais sobre aquela criança, provocando e tentando fazer com que o outro lado cometa uma imprudência que possam apresentar na justiça. Só que... que solução existe para estes casos, em que os pais quase parecem querer matar-se uns aos outros? Que fazer aos filhos para que eles sejam poupados a estas situações? Retirá-los a ambos os pais? Família de acolhimento? Decidir logo na altura entregar a custódia a um dos pais e não haver cá partilhas?

Tomar partido por alguém sabendo apenas a versão de um lado é errado; por isso abstenho-me de dar a minha opinião sobre este caso - até porque eu de jurista tenho zero e percebo ainda menos que zero destas coisas de leis e direitos e deveres quando mete filhos (até porque ainda não tenho nenhum). Agora que é algo que merecia uma resolução definitiva sem que os advogados de ambos os lados andem a deixar passar o tempo e a deixar arrastar ainda mais a coisa, ai isso merecia. Mais que não seja, pelo bem da criança - afinal de contas a "responsável" por toda esta situação e a que menos culpa tem nesta autêntica novela... e de quem toda a gente se esquece enquanto arrancam os cabelos uns dos outros. É triste.

disfunção original de Rodolfo Dias às 23:31

11.01.16

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Morreu o Major Tom. E o Ziggy Stardust. E o Halloween Jack. E o Thin White Duke. E o Aladdin Sane. E o Homem que Vendeu o Mundo. E que, depois, Caiu na Terra.  E o Jareth, o Rei dos Goblins. E o Pierrot. Todas estas personas, e mais algumas, povoaram o nosso imaginário desde o fim da década de 60. Tudo por culpa do cancro, esse eterno filho-da-puta que passa a vida a ceifar quem não merece.

Há coisas que não percebemos na altura e que depois de algum tempo encaixamos. Há poucos dias, David Bowie tinha feito 69 anos, fazendo coincidir essa data com o lançamento do seu último trabalho, "Blackstar" - e o vídeo que acompanha o segundo single, "Lazarus", era algo muito estranho, onde se vê um Bowie a contorcer-se numa cama de hospital a dizer que "tenho cicatrizes que não podem ser vistas", enquanto outro Bowie, vestido de negro, continua a escrever e a criar enquanto o outro definha; depois o Bowie criador desaparece dentro de um armário. Poderá ter sido esta a forma do Camaleão se despedir dos fãs? Partindo deste mundo deixando uma prenda de despedida para os fãs? Penso nisso e lembro-me de outro caso, o de Freddie Mercury, outro dos grandes génios musicais de sempre: quando a SIDA começou a afectar e a debilitar-lhe o corpo, ele, indiferente à doença, começou a gravar, a pedir aos colegas dos Queen para lhe darem material para gravar, para que "quando eu desaparecer, vocês possam acabar as músicas". Pessoas que, apesar de saberem que estão a morrer, querem deixar um legado, um agradecimento aos fãs que cresceram a ouvir as suas músicas.

Ao mesmo tempo há algo que me aflige. Com o desaparecimento de mais um ícone musical, começam a faltar artistas que façam músicas que resistam ao teste do tempo. Nos dias de hoje, o que temos são Justin Biebers, Beyonces, 1Ds, David Guettas e similares que fazem umas músicas que enxameiam as rádios na altura mas que mais cedo ou mais tarde desaparecem para nunca mais serem lembradas. Passamos de mestres creativos para malta dependente da criatividade alheia para poderem ser alguém - o que é triste. Por isso é que a música de hoje em dia é uma tristeza, um desconsolo, algo que até dá gases ouvir.

Que descanses em paz, David, nessa lata onde estás sentado bem por cima do mundo.

disfunção original de Rodolfo Dias às 12:05

06.11.15

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Toda a gente sabe o que são melões. Sim, antes de mais, é um fruto ainda relacionado com as melancias. Mas os melões têm outra "aplicação prática": Dizermos que "estamos com um melão" é do mesmo calibre de "estar com azia": ficarmos lixados da vida por causa de alguma coisa que não nos correu de feição. Normalmente aplica-se (mas não é exclusivo a) ao futebol, quando a equipa por quem torcemos perde um jogo. Como não tenho mais nada para colocar no web-log e apetece-me dar vida à coisa, e como, por estes dias, só se tem falado mesmo do guerras parvas entre gentes do Sporting e gentes do Benfica, e sabendo que eu sou um benfiquista assumido, vou relatar a primeira vez que me senti com um melão enorme.
Estávamos no dia 16 de Maio de 1993. Nesse dia jogava-se a 31ª jornada do campeonato, e o Benfica estava na frente com um ponto de vantagem sobre o FC Porto. Nessa tarde ambos jogavam fora de cada: Os azuis-e-brancos iam a Trás-os-Montes jogar com o lanterna-vermelha e já condenado Desp. Chaves, enquanto os encarnados iam a Aveiro bater-se com o Beira-Mar, ainda a lutar por um histórico apuramento europeu, no complicadíssimo Mário Duarte, onde o Sporting já havia deixado um ponto. Como sempre, acompanhei o jogo do Benfica pelos relatos radiofónicos da Renascença, nos tempos em que realmente valia a pena fazê-lo, com sete ou oito jogos a decorrerem ao mesmo tempo, os golos a acontecerem ao mesmo tempo em estádios diferentes... De facto era uma outra era, mais interessante que a actual. Mas adiante.
O Chaves – FC Porto era à noite, portanto o Benfica tinha de ganhar para fazer pressão nos azuis-e-brancos e manter a liderança; só que os “encarnados” não conseguiam fazer nenhum golo ao Beira-Mar. As coisas complicaram-se aos 60 minutos, quando o Yuran viu o segundo amarelo e foi expulso. Nessa altura a minha mãe veio ao meu quarto dizer-me que íamos sair, visitar uns tios meus. Não tive outra opção senão ir, embora de má vontade – e de coração apertado, porque o Benfica não marcava... Mesmo assim, o rádio do Yugo 45A (sim, nós tivemos um carrito desses!), por cortesia ao pirralho, lá foi na Renascença. Sempre que alguém interrompia com um "GOOOOOOOOOOOOOOOOOOLOOOOOOO" eu fazia figas para que, a seguir, o relatador acrescentasse um "DO BENFICA!!"; todavia isso nunca aconteceu; e eu a começar a ficar nervoso...
Os minutos foram passando, comecei a roer as unhas até aos cotovelos (mentira, nunca roí uma unha que fosse na vida) e a sentir as palmas das mãos húmidas, rezando a todos os santinhos para que o Rui Águas ou o JVP, ou o Rui Costa, ou o Paneira conseguissem bater a bem ordenada defensiva aveirense e fazer o golinho que assegurasse a vitória e a liderança. Mas o Benfica não marcava...
Até que surgiu mais um "GOOOOOOOOOOOOOOOOLOOOOO...", e, como sempre, fiz figas; só que, para meu grande desgosto, o que veio a seguir foi "... DO BEIRA-MAR!" Tinha sido o Dino, o terrível Dino, o Dino Furacão, cujas orelhas pareciam um prato duma antena parabólica, a fuzilar o Silvino e a fazer o 1-0. Já não havia tempo para muito mais. O Pacheco ainda seria expulso, para ajudar à festa, e o Benfica acabaria o jogo derrotado e com nove jogadores. E com a liderança em perigo.
Escusado será dizer que nessa tarde não tive apetite para muito mais. A visita aos meus tios teve o condão de me deixar ainda mais aziado porque o meu tio era um sportinguista fanático e fartou-se de gozar o bocado, a mandar bocas e a picar, tudo isto enquanto se preparava para ir para o clube ali da zona ver a bola, ver o Chaves – FC Porto (durante anos pensei que fosse ver o Sporting, pois equipou-se como tal, de cachecol e bandeira – mas esses já tinham jogado na véspera, no Funchal, perdendo 2-4 com o Marítimo) e ele queria ver o jogo com os amigos. Recordo-me que, após ele ter saído, eu meti a língua de fora na direcção da porta da rua, irritado (e porque não dizê-lo, aziado) com aquele gozo e porque na altura a minha mente de puto não pensei em nada de melhor para lhe responder. Ainda ficámos com a minha tia mais um bocado, os meus pais e ela na conversa, eu a remoer, até que viemos embora para casa. 

À noite, e apesar de “para lá do Marão mandarem os que lá estão” (o que não havia acontecido muito naquela época), oo Chaves deu luta, mas no final o FC Porto arrancaria uma vitória por 2-1 que confirmava a ascensão à liderança do campeonato – de onde já não sairia.

Hoje em dia não me tenho sentido muito afectado pelo futebol, pelo que não tenho sentido muitos melões (só mesmo em 2013, com a farândola de "minutos 92"), apesar de, está época, ter recebido atoardas a torto e a direito de sportinguistas emproados porque “nos roubaram o Jórjus”, porque ganharam a Supertaça ao Benfica, vão à frente do campeonato e ganharam convincentemente na Luz. Lá está: por mim, podem fazer ou dizer tudo desde que me deixem em paz – todavia, se me provocarem, desejo que vos caia um peso de 16 t em cima. No mínimo.

disfunção original de Rodolfo Dias às 13:41

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