10.04.16

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Há coisas que são mais fortes que nós. Que, por mais força que façamos, não conseguimos alterar e ser de outra maneira.

Cada um tem os seus rituais quando assiste a um jogo de futebol da sua equipa – não me digam que não. Ou usar sempre a mesma peça de roupa, ou ir sempre da mesma maneira ao estádio, ou comer a mesma coisa antes do jogo, todos nós (ou muitos de nós, vá) temos aquela superstiçãozita que acreditamos que dá sorte antes de qualquer partida. E eu não sou excepção – o que, per se, é estúpido pois eu não sou supersticioso… excepto no que respeita ao futebol. E, por muito pouco que demonstre, sofro demasiado com a puta merda da bola. De tal forma que a minha superstição é não ver o jogo, isolar-me de tudo e todos, desligar telemóveis e apenas regressar ao mundo quando tiverem passado duas horas do início do jogo. O que, esta temporada, até tem dado frutos – ou por outra, quando quebrei esta rotina a coisa deu merda. No Benfica - Sporting para o campeonato fui arrastado para o Almada Fórum, no Benfica - FC Porto tive um jantar. E como, quando faço este ritual a coisa até nem tem corrido mal, vai-se continuando.

Ontem lá tive de quebrar a rotina mais uma vez. Tive de ir ao Alentejo ajudar na animação de um serão nos confins do concelho de Odemira, portanto o isolamento estava fora de questão. A casa em questão não tinha Sport TV, o que era uma benesse, mas estava rodeado de benfiquistas sempre a falar no jogo e preocupados com o resultado. Para piorar a situação, enganei-me na hora de jogo e, quando dei por ela, o telemóvel já tinha recebido a notificação do golo da Académica… tornando impossível qualquer ideia que eu pudesse ter de me isolar. Talvez pudesse e devesse ter ido à procura de um café com a TV do Oliveirinha, mas eu vivo na convicção que o meu coração há-de ceder quando eu estiver a assistir a um jogo do Benfica, por isso nem me mexi – a não ser ser para mudar a mão da qual estava a roer as unhas até aos cotovelos. Ufff, do mal o menos, o Mitroglou marcou dali a bocado e o jogo chegou ao intervalo assim, informação que passei a quem estava ali ao pé também. Segunda parte e a hora de jantar a aproximar-se, com uma mudança de metade das cordas da viola pelo meio (mau estado obligée). E sempre que podia, lá ia ver se havia uma notificação nova no telemóvel…

Faço aqui um parênteses para falar da cobertura móvel no concelho de Odemira. Um nojo. Seja qual for a operadora, apesar da Optimus NOS ainda conseguir ser a menos ruim. Quem passa a vida a apregoar “cobertura em 100% do território nacional” devia ter uma avaria no carro aqui na zona e depois tentar entrar em contacto com ajuda. Miserável, miserável. Anda-se tão preocupados em arranjar telemóveis 4G à malta e nem se preocupam em disponibilizar sequer 1G ou 2G em algumas zonas do país? Isto tudo porque a cobertura da rede onde eu estava era má (no mínimo) e houve alturas em que não chegava nada, nem os dados do jogo actualizavam, tudo enquanto o telemóvel andava a saltar do ‘H’ para o ‘3G’ e vice-versa.

Continuando… a operação na viola foi sendo feita com um nó na garganta e mãos congeladas, tudo porque não surgiam notícias de Coimbra nem aparecia um apito a assinalar golo de alguém. Até que, depois de mais uma corda metida e de já se estar nos finalmentes da operação, vou ver o telemóvel, está lá uma notificação e é o 1-2! Imediatamente levantei os braços no ar e soltei um suspiro de alívio, as probabilidades de aqueles rapazes continuarem na liderança aumentara exponencialmente – o que, minutos depois, se confirmou. Foi como se um peso de 16 t me tivesse saído de cima da cabeça.

Há quem leia isto (LOL) e me considere um “falso benfiquista” (não seria a primeira vez) por andar arredio dos estádios (náo ter fonte de rendimentos também não ajuda) e nem ver ou ouvir (algo que fazia sempre) os jogos. Já estou naquela fase em que me estou a cagar para as opiniões alheias: vivo e sofro pelo Benfica à minha maneira e não me considero nem mais nem menos benfiquista por isso. E quarta-feira vou-me voltar a enfiar na caverna – isto se não tiver planos.

disfunção original de Rodolfo Dias às 10:20
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06.11.15

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Toda a gente sabe o que são melões. Sim, antes de mais, é um fruto ainda relacionado com as melancias. Mas os melões têm outra "aplicação prática": Dizermos que "estamos com um melão" é do mesmo calibre de "estar com azia": ficarmos lixados da vida por causa de alguma coisa que não nos correu de feição. Normalmente aplica-se (mas não é exclusivo a) ao futebol, quando a equipa por quem torcemos perde um jogo. Como não tenho mais nada para colocar no web-log e apetece-me dar vida à coisa, e como, por estes dias, só se tem falado mesmo do guerras parvas entre gentes do Sporting e gentes do Benfica, e sabendo que eu sou um benfiquista assumido, vou relatar a primeira vez que me senti com um melão enorme.
Estávamos no dia 16 de Maio de 1993. Nesse dia jogava-se a 31ª jornada do campeonato, e o Benfica estava na frente com um ponto de vantagem sobre o FC Porto. Nessa tarde ambos jogavam fora de cada: Os azuis-e-brancos iam a Trás-os-Montes jogar com o lanterna-vermelha e já condenado Desp. Chaves, enquanto os encarnados iam a Aveiro bater-se com o Beira-Mar, ainda a lutar por um histórico apuramento europeu, no complicadíssimo Mário Duarte, onde o Sporting já havia deixado um ponto. Como sempre, acompanhei o jogo do Benfica pelos relatos radiofónicos da Renascença, nos tempos em que realmente valia a pena fazê-lo, com sete ou oito jogos a decorrerem ao mesmo tempo, os golos a acontecerem ao mesmo tempo em estádios diferentes... De facto era uma outra era, mais interessante que a actual. Mas adiante.
O Chaves – FC Porto era à noite, portanto o Benfica tinha de ganhar para fazer pressão nos azuis-e-brancos e manter a liderança; só que os “encarnados” não conseguiam fazer nenhum golo ao Beira-Mar. As coisas complicaram-se aos 60 minutos, quando o Yuran viu o segundo amarelo e foi expulso. Nessa altura a minha mãe veio ao meu quarto dizer-me que íamos sair, visitar uns tios meus. Não tive outra opção senão ir, embora de má vontade – e de coração apertado, porque o Benfica não marcava... Mesmo assim, o rádio do Yugo 45A (sim, nós tivemos um carrito desses!), por cortesia ao pirralho, lá foi na Renascença. Sempre que alguém interrompia com um "GOOOOOOOOOOOOOOOOOOLOOOOOOO" eu fazia figas para que, a seguir, o relatador acrescentasse um "DO BENFICA!!"; todavia isso nunca aconteceu; e eu a começar a ficar nervoso...
Os minutos foram passando, comecei a roer as unhas até aos cotovelos (mentira, nunca roí uma unha que fosse na vida) e a sentir as palmas das mãos húmidas, rezando a todos os santinhos para que o Rui Águas ou o JVP, ou o Rui Costa, ou o Paneira conseguissem bater a bem ordenada defensiva aveirense e fazer o golinho que assegurasse a vitória e a liderança. Mas o Benfica não marcava...
Até que surgiu mais um "GOOOOOOOOOOOOOOOOLOOOOO...", e, como sempre, fiz figas; só que, para meu grande desgosto, o que veio a seguir foi "... DO BEIRA-MAR!" Tinha sido o Dino, o terrível Dino, o Dino Furacão, cujas orelhas pareciam um prato duma antena parabólica, a fuzilar o Silvino e a fazer o 1-0. Já não havia tempo para muito mais. O Pacheco ainda seria expulso, para ajudar à festa, e o Benfica acabaria o jogo derrotado e com nove jogadores. E com a liderança em perigo.
Escusado será dizer que nessa tarde não tive apetite para muito mais. A visita aos meus tios teve o condão de me deixar ainda mais aziado porque o meu tio era um sportinguista fanático e fartou-se de gozar o bocado, a mandar bocas e a picar, tudo isto enquanto se preparava para ir para o clube ali da zona ver a bola, ver o Chaves – FC Porto (durante anos pensei que fosse ver o Sporting, pois equipou-se como tal, de cachecol e bandeira – mas esses já tinham jogado na véspera, no Funchal, perdendo 2-4 com o Marítimo) e ele queria ver o jogo com os amigos. Recordo-me que, após ele ter saído, eu meti a língua de fora na direcção da porta da rua, irritado (e porque não dizê-lo, aziado) com aquele gozo e porque na altura a minha mente de puto não pensei em nada de melhor para lhe responder. Ainda ficámos com a minha tia mais um bocado, os meus pais e ela na conversa, eu a remoer, até que viemos embora para casa. 

À noite, e apesar de “para lá do Marão mandarem os que lá estão” (o que não havia acontecido muito naquela época), oo Chaves deu luta, mas no final o FC Porto arrancaria uma vitória por 2-1 que confirmava a ascensão à liderança do campeonato – de onde já não sairia.

Hoje em dia não me tenho sentido muito afectado pelo futebol, pelo que não tenho sentido muitos melões (só mesmo em 2013, com a farândola de "minutos 92"), apesar de, está época, ter recebido atoardas a torto e a direito de sportinguistas emproados porque “nos roubaram o Jórjus”, porque ganharam a Supertaça ao Benfica, vão à frente do campeonato e ganharam convincentemente na Luz. Lá está: por mim, podem fazer ou dizer tudo desde que me deixem em paz – todavia, se me provocarem, desejo que vos caia um peso de 16 t em cima. No mínimo.

disfunção original de Rodolfo Dias às 13:41
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26.03.15

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Convenhamos: hoje podia-se falar sobre muita coisa. Podia meter-me aqui a atirar teorias sobre o assassinato de 149 pessoas por um co-piloto com desejos suicidas (já que toda a gente agora é formada em aviação, tal como têm licenciaturas em meteorologia, economia e em todos os temas "quentes" da actualidade), podia finalmente colocar aqui, preto no branco, a minha opinião sobre as feministas (e a seguir preparar-me para emigrar para um deserto onde elas não me pudessem encontrar), ou falar sobre os animais que decidiram envenenar o cão do juiz Carlos Alexandre, encarregue do "caso Sócrates". Mas não estou para isso.

Hoje apetece-me andar a puxar memórias de infância (f...-se, isto faz-me sentir velho).

Esta tarde, enquanto dava o meu passeiozinho diário anti-atrofio (das merdas que preciso de fazer agora que deixei novamente de ter ocupação), passei por um campo e estavam lá uma meia-dúzia de putos a jogarem à bola, com uma mochila a servir de poste, uma árvore a fazer de outro poste, do outro lado a mesma coisa, e eles lá pelo meio ainda a tentarem descobrir quais eram as equipas. Não fiquei lá especado a assistir, até porque nestes tempos podia aparecer logo gente a questionar-me o que estava eu ali a fazer; todavia, enquanto continuava a minha caminhada, a minha mente deu um pulo atrás no tempo.

Já não sei que ano era. 1990s-e-muitos. Naquela altura, eu não tinha barriga. Naquela altura, eu ainda corria (hoje em dia, considero isso uma "tentação do Demónio"). E, logicamente, naquela altura eu ainda jogava futebol. Até mesmo em casa, com uma bola de ténis, e fazia sempre altas exibições e grandes reviravoltas nos resultados. Na vida real, todavia, nunca fui grande espingarda. Na escola, sempre que havia futebolada eu era dos últimos a serem escolhidos. E muitas vezes era o "destinado" a ir para a baliza levar com as boladas dos outros; das outras, ficava na defesa mas nunca recebia um passe - logo por aqui se vêem os meus dotes para a coisa e a confiança que os meus colegas tinham nos meus dotes futebolísticos.

Aos fins-de-semana, todavia, a coisa era muito diferente. Muitas vezes eu ia para a casa da minha avó paterna, ali nas imediações da Sobreda da Caparica, numa zona de lotes que, ultimamente, tem andado a ser urbanizada - há largos anos, acho eu. E, dois lotes para o lado daquele onde estava a casita da minha avó, estava um terreno sem dono, com uns barracões de madeira, com uma ligeira inclinação, mas que tinha erva com fartura - perfeito para a prática desportiva para miúdos de 10-15 anos. Numa casa vizinha, morava um rapaz, o Renato, dono de algumas bolas de futebol e a quem calhava ter um colega de troca de chutos. Foi num instante que nos conhecemos e que começámos a trocar uns pontapés nas bolas (salvo seja). Maior parte das vezes jogávamos "de baliza a baliza", ele de um lado, eu do outro, cada um na sua baliza feita de dois calhaus no chão, e a darmos chutos a tentar meter a bola na baliza um do outro. Esta era a minha modalidade preferida, porque... enfim, corria-se menos - e porque nunca tive jeito para fintas, admito-o. De vez em quando lá se jogava futebol a sério, eu contra ele, e logicamente eu levava sempre grandes tareões. Mas, às duas por três, lá aparecia mais gente e tínhamos um jogo mais composto. Algumas vezes, quando não havia equidade no tamanho das equipas, só se jogava com uma baliza (o célebre "rodinha-bota-fora"), outras vezes era mesmo com duas balizas e uma equipa jogava com menos um e a outra jogava com guarda-redes fixo.

Foi assim que conheci muita rapaziada, muito antes do tempo de Facebooks e Twitters e merdas do género. Era o Artur, que vim depois a descobrir que era meu primo distante (e que, infelizmente, perdeu a mãe alguns anos depois para o cancro); era o Ricardo, um sacana arrogante do caraças mas que jogava bem à bola; era o Pedro, o irmão mais velho do Ricardo e que conseguia superar o mano em dotes futebolísticos (e que me chamava Canina, nunca percebi porquê: não sou nem era assim tão pequeno); era o Mário, que morava numa bruta vivenda um bocado mais acima do nosso "campo", ruivo e com sardas - se a memória não me atraiçoa; era o Pedro (? - sinceramente agora já não me recordo se era esse o nome dele), um gajo um bocadito largo das cadeiras (para não dizer gordo) mas que não se desenrascava mal; e se calhar mais alguns, que entretanto a memória já apagou. Muita jogatana fizemos naquele campo, nem faço ideia das vitórias ou derrotas que tive ali, das vezes que se teve de trepar ao telhado dos barracões para ir buscar a bola, ou que se teve de se invadir os lotes vizinhos para ir, mais uma vez, buscar a bola. Uma ou outra vez, quando o rei fazia anos, iamos até ao campo de futebol a sério, se calhar a uns 500 m do "nosso", mas com tamanho mais ou menos oficial e balizas idem (ou seja, para nós, miudagem imberbe, enormes); certo e sabido que, após os jogos naquele campo, eu tinha de tomar um banho.

Depois os anos foram avançando, aquele lote foi comprado ou simplesmente ocupado pela Câmara de Almada como apoio para se começar a urbanização daquela zona, e tivemos de procurar outras áreas para os nossos futebóis, eu e o Renato. Apareceram novos colegas de futeboladas, encontraram-se novos campos, mas os tempos estavam a mudar: a minha avó começou a deixar de ter condições de viver sozinha, começando aí o famoso périplo um-mês-em-casa-de-cada-filho. Com isso, praticamente deixei de ir até lá, e a minha prática futebolística morreu por completo. Dos meus colegas de futebolada, perdi o rasto a todos, até mesmo do Renato - apesar de, uma vez, ele me ter aparecido à frente quando eu trabalhava na Fnac do Almada Fórum. Entretanto os músculos começaram a atrofiar e acabei por renegar por completo o acto de correr da minha vida - a não ser em casos estritamente necessários. Mas há alturas em que tenho saudades daqueles tempos. Tal como esta tarde.

Enfim. Memórias.

disfunção original de Rodolfo Dias às 19:20
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20.02.15

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Os ânimos andam demasiado exaltados, as redes sociais andam em polvorosa. Porquê? Pois, boa pergunta.

Desde os ataques ao Charlie Hebdo houve quem bradasse aos quatro ventos que, com aquilo, era o fim da liberdade de expressão, que, a partir daquele dia, as pessoas iam ter medo de continuar a dizer o que pensam. Eu, na altura, achei isso um exagero. Todavia, mais de mês e meio depois dessa triste data, cada vez mais acho que esses arautos da desgraça tinham razão. Mas não pelos motivos propagados - e com esse ataque à liberdade de expressão a vir precisamente de quem mais a "defende".

Não sei se a crise em que vivemos anda a mexer com as cabeças da população e elas acabam por precisar de aliviar o stress de alguma forma, mas diria que nos dias de hoje há que se ter muito cuidadinho com o que se coloca nas redes sociais - muito mais do que se tinha cuidado com as conversas nos tempos da PIDE/DGS - sob pena de alguém, Charlie ou não, não gostar, seja lá por que motivo for, e desencadear a partir dali uma campanha de ódio contra a pessoa (ou instituição - mas já elaboro este caso), que ecoa em outras pessoas que alinham pelo mesmo diapasão, sentem-se ultrajadas pelo colocado... e, a partir daí, o infeliz tem a vida feita num inferno, com ameaças a tudo o que ele tem (família, trabalho, and so on). Passemos a um exemplo.

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A mensagem assinalada é de José Gabriel Quaresma, jornalista da TVI24. Vou fazer um leap of faith e assumir que todos nós, nalgum momento da nossa vida, dissemos algo do género, nas mais diversas situações. Não sei se sim se não, mas não interessa. O que interessa é que houve quem visse e não ligasse, houve quem achasse piada e se risse... e, logicamente, houve quem não achasse piada à coisa. E divulgasse. E a partir daí começaram as ofensas, as acusações, as ameaças, os mails para a TVI com o intuito de provocar o despedimento do jornalista - o costume, portanto, quando as pessoas sentem que estão a atentar contra a honra da sua dama.

Depois há o exemplo da Sagres. Como sabeis, nestes últimos dias apareceu uma publicidade da Sagres baseada numa fífia/frango/"o que lhe queiram chamar" de Rui Patrício no jogo Belenenses - Sporting. E, tal como aconteceu no caso anterior, houve quem achasse piada, quem encolhesse os ombros e, claro está, quem ficasse afrontado com aquilo, indignando-se contra "o achincalhamento do titular da Selecção Portuguesa", jurando nunca mais tocar nos produtos da Sagres, inundando os servidores de mail do provedor do cliente - e, até, colocando no OLX grades de cerveja Sagres à venda (a um preço ridículo, mas não importa).

Eu sou daquelas pessoas que acham que a vida é demasiado curta para andarmos aqui a destilar ódio por tudo o que mexa e não siga as nossas doutrinas e reconheço que também já me indignei algumas vezes com situações parvas, mas... qual a necessidade de chegarmos a estes pontos por coisas parvas? O que aconteceu à nossa boa-disposição, ao nosso poder de encaixe? E vamos partir do pressuposto que estas campanhas de ódio fazem valer os seus direitos e conseguem efectivamente provocar o despedimento do prevaricador: o que se ganhou com isso? Ou é a sempre presente Schadenfreude que tanto amamos e veneramos a entrar em cena?

Gostava que me explicassem isso. Mas com desenhos, pode ser que eu perceba assim.

 

PS: quero desde já deixar bem claro: se as situações se tivessem passado com outros intervenientes de outros clubes, as minhas posições seriam exactamente as mesmas, lamento. Quando não gosto das coisas, não as vejo - parece-me simples matemática, certo? Como diz uma amiga minha, "Ser Charlie não é rir de tudo, é só não matar quem não nos faz rir."

disfunção original de Rodolfo Dias às 11:22
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04.07.14

Ontem à tarde/noite (abençoado Verão!), depois de jantar, cheguei ao Twitter e comecei a ver malta a falar da morte de Rui Tovar. Encolhi os ombros, divertido: na Internet "mata-se" gente todos os dias (o Bonga e o Camilo de Oliveira que o digam). Todavia, quando começaram a surgir os sites de notícias a confirmarem o óbito, confesso que me caiu tudo. Acho que ainda agora estou em negação, achando que tudo não passou de um engano, que viram uma pessoa parecida com ele no hospital, que entretanto morreu, e que a partir daí induziram toda a nação em erro - diria que a Comunicação Social portuguesa é perfeitamente capaz disso e de pior. É que ainda era demasiado cedo para o Rui Tovar nos deixar. Havia ainda imensas histórias que ele tinha para contar a esta nova geração de amantes do desporto-rei, muitas lições que ele tinha a dar aos pseudo-comentadores de futebol dos dias de hoje.

Rui Tovar não precisava de soltar "uish" sempre que havia um remate perigoso, nem precisava de utilizar palavras caras saídas de um qualquer livro (ou de as inventar!) para mostrar que sabia o que estava a dizer. Nunca consegui perceber a sua preferência clubística - acho que sempre acreditei que Rui Tovar não torcia por nenhum clube em especial ou, por outra, apoiava-os todos, sendo genuinamente alguém imparcial. As suas crónicas e comentários sempre foram claros e concisos, não floreando, dando os factos como eles eram. Não me recordo de o ver entrar em polémicas com arbitragens - talvez seja uma falha de memória minha. E acho que a sua presença no "Domingo Desportivo" acabou por ter alguma influência na minha forma de ver e ouvir futebol.

O homem pode ter partido, mas a sua obra fica. Autor de muitos livros, jornalista de muitos jornais ao longo da carreira (foi mesmo vítima do Verão Quente de 1975, saneado do "Diário de Notícias" por ordem de... José Saramago), gostava de destacar o "Almanaque do Benfica"1, obra incontornável e que agrega, num volume de 700 páginas, todos os jogos oficiais que o Benfica disputou, desde o tempo "de andar com as balizas às costas", todos os jogadores, treinadores e presidentes que passaram pelo clube e estiveram envolvidos na história do clube. Obra incontornável para alguém como eu, um amante das história e das histórias do futebol (o meu exemplar está cheio de notas, risquinhos e correcções feitas por mim ao longo dos anos que o tenho). Todavia, não julgai que isso define as suas tendências clústicas, pois também tratou dos seus equivalentes, o "Almanaque do Sporting" e o "Almanaque do FC Porto", de idêntico valor arqueológico para os adeptos desses clubes, e do "Almanaque da Selecção - Edição Campeonato Europeu de 2004", lançado antes dessa competição, com dados sobre o Euro'2004 (equipas, jogos, estádios), história dos Campeonatos da Europa... todos os jogos realizados pela Selecção de Portugal até Fevereiro de 2004 e todos os jogadores que vestiram a camisola das quinas. Muitos destes hercúleos trabalhos foram desenvolvidos com a ajuda do filho Rui Miguel Tovar, que, diria eu, segue as pisadas so pai no que respeita aos seus créditos como jornalista desportivo. É ele que trata da conta de Twitter de Desporto do jornal i, sempre com isenção e bastante humor, e tem também já alguns livros que vale a pena ler, livros com histórias do futebol português de sempre, ou da década de 80.

Apenas me resta agradecer ao Rui Tovar por todo o seu trabalho, e quero acreditar que, hoje, ele estará ocupado com algo deste género. Que descanse em paz.

 

 


 

1- Existem já três versões deste Almanaque, pelo menos: a primeira (Edição Centenário), actualizada até 2003, a segunda, até 2012, e a última, até este defeso. Estas duas últimas versões já foram feitas sob o comando do seu filho Rui Miguel Tovar.

música: Vangelis - Antarctica
disfunção original de Rodolfo Dias às 17:37
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26.06.14

Pronto, agora que Portugal já saiu do Mundial, talvez agora os verdadeiros fãs de futebol possam ver o resto da competição descansados, apreciar os jogos sem nacionalismos bacocos.

Que comece a segunda fase!!

disfunção original de Rodolfo Dias às 22:02
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25.06.14

Para quem gosta do Mundial, bom... estamos em pleno Mundial! E, para variar, lá apareceram os nacionalismos de algibeira, as bandeiras nas janelas, nos carros, as decorações verdes-encarnadas-e-amarelas em todo o lado. Em teoria, eu não tenho nada contra isso, na prática... tenho o problema de ver em tudo isto uma falta de coerência tremenda. Durante 3/4 do ano, dizemos mal de Portugal, que o país não presta, está podre e assim; no resto do tempo, aplaudimos e fazemos uma festa porque a Selecção vai jogar, temos o melhor jogador do Mundo, somos os maiores.

Ora bem: neste momento, estamos a menos de 24h do final do último jogo da fase de grupos do grupo de Portugal, e, se as previsões se confirmarem, a FPF vai sair pela porta pequena desta competição. E o que apresentiu a equipa até agora? Um rotundo zero. Falta de preparação, lesões musculares em barda, o "melhor jogador do mundo" transformado em jogador mediano. Cinco jogadores lesionam-se em 180 minutos de futebol mas não houve qualquer má-preparação. Porque, lá está: a partir do momento que as coisas começam a correr mal, começam as desculpas. A equipa médica descartou-se logo, dizendo que estava tudo bem, e que a culpa do "melhor jogador do mundo" estar em baixo de forma foi do Real Madrid, que não avisou do real estado do jogador. Depois a culpa para o fraco rendimento e para as lesões foi atribuída à humidade. Então de que serve o estágio e o ir-se para o país da competição umas semanas antes do início da mesma, não é para permitir aos jogadores ambientarem-se às condições atmosféricas?

 

Não me recordo agora se cheguei a falar nisso, mas não consigo apoiar Portugal nas competições internacionais. Deixei de me rever numa selecção que é uma pálida descendente das grandes selecções de 1966 e 1984, de uma equipa que não se renova, que tem camadas jovens bastante interessantes mas cujos elementos nunca terão grande presença na equipa A. Isto porque, se a Selecção tem alguma falha, alguma lacuna, faz-se como nas equipas de futebol: em vez de se ir às camadas jovens, usa a solução "fácil" de naturalizar jogadores. É mais rápido - tipo a comida "fast food".

Depois é isto: olhemos à Selecção em 1984...

Fonte: http://thevintagefootballclub.blogspot.pt/2012/08/portugal-1984.html

 

... e à Selecção de 2014. 

Fonte: http://boasnoticias.pt/noticias_FIFA-Sele%C3%A7%C3%A3o-portuguesa-sobe-ao-top-3-do-mundo_19350.html

Qual a equipa com jogadores dignos de representar a Selecção? Qual a equipa com mais jogadores dignos de constarem na história do futebol português? Se calhar são motivos tacanhos... mas são os meus motivos.

música: Cassino & Laben - Leaving Panic Behind
disfunção original de Rodolfo Dias às 20:11
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