14.01.15

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Quem por cá anda a ler-me todos os anos que eu tenho andado a vomitar coisas para um web-log (ou seja, cerca de zero pessoas) sabe a minha posição sobre caricaturas e Islão (tenho é de ver se reponho as imagens...). E, pasme-se: a posição que eu tinha há nove (!) anos mantém-se. Isto de haver gente que decide pegar em espingardas e assassinar outros só porque ridicularizaram uma personagem importante na mitologia de uma religião é perfeitamente estúpido. Até aqui, nada de novo e acho que concordamos todos com isto (excepto os visados, obviamente).

Agora a coisa pia mais fino é quando assistimos ao aftermath dos atentados de Paris, não só em França mas por todo o lado, inclusivamente cá. Vemos toda uma fatia de pseudo-intelectuais a auto-intitularem-se defensores da liberdade de expressão e a brandirem a bandeira do "Je suis Charlie" - mas que, no dia-a-dia, não admitem qualquer crítica ao seu trabalho, à sua forma de pensar ou às coisas que defendem.

Nestes últimos dias, apareceram como "charlies":

  • jornalistas/humoristas/-istas que, nas redes sociais, bloqueiam todos os que acham o seu trabalho ou a sua escrita uma merda;
  • pessoas que nunca ouviram sequer falar no Charlie Hebdo nem sabem de que se trata;
  • pessoas que apenas se preocupam com a liberdade de expressão quando está em causa a sua liberdade de expressão;
  • malta que apenas se intitula como tal porque é "fixe" e porque é a "cena do momento".

(provavelmente alguns dos grupos que referi até poderão ser repetidos, mas diria que há diferenças entre todos eles)

Depois, obviamente, há quem queira fazer aproveitamento político destas coisas, quem declare que o que se passou na redacção do Charlie Hebdo é derivado das políticas de austeridade ou que os media portugueses deviam dedicar-se aos "direitos de um português que está IMPEDIDO de dar entrevistas" em Évora. Nestas alturas, todos os lunáticos saem todos da toca e recebem o protagonismo que anteriormente ninguém lhes dá.

O que não tem piada nenhuma é que, no final de contas, está tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. Em França, esse paraiso do multi-culturalismo onde todos são bem-vindos e podem fazer de conta que estão em casa (assim como por toda a Europa, Portugal inclusivé), não se pode interferir com os credos alheios, os franceses têm de adaptar a sociedade para comportar os costumes sócio-culturais dos imigrantes (em vez do contrário que seria, afinal de contas, o mais lógico) e estão sujeitos a sofrer a sua hostilidade por alguma "falta de respeito" - mas se as coisas acontecerem no sentido inverso, existe logo uma sublevação, motins, gente injustiçada a brandir forquilhas contra o "racismo" europeu. Em Portugal, isso também acontece, obviamente: basta ver como as minorias étnicas são tratadas em relação aos autóctones, os privilégios que disfrutam e que gozam que os de cá não possuem. De certeza que haverá quem ache isto "racista" ou "xenófobo"; só que, se eu calhar a ir para um país muçulmano ou hindu, terei sempre de me adaptar às suas regras, aos seus costumes e cultura; porque será que o inverso não acontece?

São assuntos celeumáticos, é um facto. E sei que os europeus também não são flor que se cheire (o segundo milénio está cheio de casos em que forçámos os outros a adaptarem a nossa cultura e crenças sob pena de serem passados a fio de espada ou bala de mosquete). Todavia desviei-me do assunto em questão: a hipocrisia que rodeia o massacre do Charlie Hebdo. E ainda há outra coisa que me esqueci de referir: caso a publicação estivesse conotada com a direita, em vez da sua inclinação actual, cheira-me que o desgosto e revolta com o atentado teria sido muito menor. Aposto o que quiserdes.

Para finalizar: se quisesse armar-me aos cucos, tinha colocado uma imagem do Charlie Hebdo: todavia, preferi antes relembrar a coisa mais parecida com essa publicação que alguma vez existiu: Gaiola Aberta/Fala Barato/O Cavaco/O Moralista, do imortal José Vilhena, esse one-man show que fazia tudo nas suas revistas que inundaram as bancas nacionais após a Revolução de 1974, que teve o sucesso que teve precisamente por a sua prosa encontrar refúgio nos ideiais de esquerda. Alguém adivinha que sucesso teria uma revista satírica se esta fosse fã da direita - mesmo estando nós num país com liberdade de expressão e com tantos araútos a defendê-la?

disfunção original de Rodolfo Dias às 14:41
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Este web-log não adopta a real ponta de um chavelho. Basicamente, aqui não se lê nada de jeito. É circular, c...!
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