28.06.11

 


Nos meus passeios pelos espaços de discussão cibernéticos sobre os CF's nacionais, há quem diga à boca cheia que sou incendiário, que defendo o fim da nossa ferrovia, que só quero ver carris a serem levantados, criação de ecopistas, and so on. Está na altura duma explicação sucinta: eu não sou contra os caminhos-de-ferro nacionais. Sou, sim, contra os caminhos-de-ferro nacionais que temos.


 


Confuso? Eu passo a explicar.


 


Em 1949, acabou de ser construído o troço entre Estremoz e Portalegre, o último duma grande rede de 3.592 km de ferrovia, entre via larga e via estreita. Uma rede que, e insisto deveras neste ponto, não cumpriu a sua missão decentemente. Porquê? Porque haviam linhas às curvas e curvinhas em zonas planas, com estações e apeadeiros localizados fora dos centros das cidades, ou mesmo no meio do nada - e algumas bastante longe das povoações que, supostamente, serviriam. Os principais causadores destas falhas foram os proprietários dos terrenos, que não os queriam ver cortados pelo cavalo de ferro, forçando as linhas a passarem por locais onde não causassem tanto "transtorno", para além dos construtores de via férrea, que eram pagos ao quilómetro. Provavelmente terão havido outros mais factores, mas estes são os principais. E, graças a eles, ficamos com uma rede disfuncional, cuja principal utilização começou a centralizar-se no eixo Porto - Lisboa - Barreiro - Faro, com as restantes linhas a começarem a sofrer um lento definhar. E as linhas que estavam projectadas para chegarem mais além, atingirem outras terras, interligarem-se noutros pontos, ficaram na gaveta. não chegaram ao seu destino...


 


A partir daí, a meu ver, é verdade, falhou o Estado Novo. Poder-se-ia ter apostado, a partir da década de '60, numa reforma monumental das nossas linhas, mudanças de traçado, construção de novas linhas que substituíssem algumas das mais velhas e deficitárias. Mas não aconteceu. Até consigo compreender que não se visse necessidade disso, tendo em conta que começavam a aparecer as primeiras auto-estradas e que se achasse necessário, para além de termos uma boa rede ferroviária, também termos uma boa rede rodoviária. Porém, falhou a ideia, principalmente pelo facto da primeira não ser, de todo boa. E isso viu-se quando o poder de compra aumentou, as estradas se foram espalhando um pouco por todo o país e foi possível aos portugueses adquirirem o seu automóvel: as pessoas que se sujeitavam a viajar quatro, cinco horas, sujeitas a transbordos, passaram a fazer as suas deslocações de automóvel, demorando, por vezes, menos tempo, em outros casos talvez mais, mas com o conforto de irem no seu espaço, à vontade, e arrumando as suas bagagens à sua maneira. E, com isso, os comboios passaram a andar mais vazios. O que provocou a diminuição do seu número... e o encerramento de algumas linhas. O Ramal de Aljustrel viu-se privado do serviço de passageiros em 1976, a ligação internacional da Linha do Douro entre Barca D'Alva e La Fregeneda, em Espanha, cessou em 1985 - com o troço Pocinho - Barca D'Alva a ser encerrado em 1988 - a Linha de Guimarães perdeu a sua ligação a Fafe em 1986, a Linha de Leixões e os ramais de Mora, de Montemor e do Montijo em 1987, a Linha do Dão, parte do Ramal de Aveiro1 e o Ramal de Reguengos em 1988, o Ramal da Alfândega, no Porto, e a Linha do Sabor em 1989...


 


Em 1990, o Governo de Cavaco Silva deu mais uma machadada brutal nas linhas de caminho-de-ferro. Foram-se cerca de 340 quilómetros de ferrovia, entre linhas no Alentejo, zona Centro e Trás-os-Montes. E a história, daí em diante, é sobejamente conhecida, com o tumultuoso encerramento da Linha do Tua (primeiramente até Mirandela, depois com a história da barragem), o fim dos comboios no Ramal de Famalicão, na Linha da Póvoa (com a passagem para o Metro do Porto)...


 


No entanto, não se pense que tudo o que se passou desde 1950 foi encerrar linhas: ainda se fizeram mais algumas ligações, maioritariamente para o transporte de mercadorias, com a construção dos ramais do Louriçal, das Minas de Neves-Corvo, da Central do Pego, da Siderurgia Nacional, a Concordância do Poceirão... e a única linha especificamente virada para o transporte de massas desta época não pode ser olvidada: a entrada em cena da Fertagus, em 1999, com comboios a passar na Ponte 25 de Abril, como projectado desde a década de '60. E, em 2003, com a conclusão da ligação entre Coina e o Pinhal Novo, ficou concluído o eixo Braga - Porto - Lisboa - Faro. Mais recentemente, foram, também inauguradas duas variantes, na Trofa e em Alcácer do Sal... mas é insuficiente. As linhas, a meu ver, necessitariam duma reforma geral, de haver uma linha directa a ligar Lisboa, Évora, Beja e Faro, de se ter uma linha nova entre o Porto, Vila Real e Bragança, com ligação a Espanha, de existir uma nova linha entre Lisboa e o Porto - uma linha em condições, nada daquilo que existe hoje em dia. Com o dinheiro que já foi enterrado na Linha do Norte, poder-se-iam ter construído umas duas ou três novas linhas... e a existente continua miserável.


 


Por isso, fui e sou defensor da Alta Velocidade. Acredito que esta é(ra?) uma oportunidade de se corrigir os erros do passado, de termos, finalmente, depois de 154 anos, uma rede ferroviária funcional e a passar nos sítios importantes. Assim como o corredor Sines - Elvas, para escoamento de mercadorias e, também, para tornar no Porto de Sines uma porta de entrada para a Europa. E o que temos, hoje em dia? Temos apenas a ligação Poceirão - Caia com luz (razoavelmente...) verde para avançar, temos uma ligação que sai de Sines pela linha velha pois os autarcas da zona não quiseram uma nova linha... e pouco mais. Pouco mais pois as autarquias, mais uma vez, como há 100-150 anos, estão a colocar-se em bicos de pés e a achar que estão a defender os seus interesses - quando, na realidade, é ao contrário. No entanto, em Portugal, já não há nada a fazer, pois a nossa mentalidade é demasiadamente comodista. De que serve termos comboios a levarem-nos à terrinha, ou de viagem, se temos uma auto-estrada, ou uma estrada, ali ao lado, e temos o nosso carro?


 



 


Nos dias de hoje, ou se tem uma ligação atractiva, com bons comboios, bons horários, linhas em condições e a passarem nos sítios certos - ou, já agora, com um serviço complementar de autocarros e/ou interligação entre o transporte rodoviário e o ferroviário - ou tem-se o que temos hoje nas linhas mais afastadas do eixo Braga - Faro: o vazio, o abandono.


 


Em 2011, temos 2.791 quilómetros de vias férreas. Menos 801 quilómetros que há cinquenta anos. E fala-se que o mapa poderá mirrar ainda mais. Mas a discussão do que eu acho que deveria ficar aberto ou não, de quantos desses 2.791 quilómetros merecem continuar abertos, fica para uma outra oportunidade: afinal de contas, este post já vai gigantesco.


 


 




1- que fizeram com que Viseu fosse a primeira capital de distrito a perder a ligação ferroviária.

disfunção original de Rodolfo Dias às 12:33
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