16.06.11


Acabou-se. Para mim, já chega. Estou farto.


Quero agradecer ao senhor Luís Filipe Vieira por ter conseguido matar o meu amor por um clube que já foi grande e agora é uma sombra de si próprio.


 


Quando nasci e me fui tornando gente, e fui iniciado no benfiquismo, tomei noção de que me havia tornado adepto dum grandioso clube, com história e tradição, com uma mole humana comparável a poucas equipas no mundo. Viam-se adeptos provenientes de todas as partes do mundo, viam-se autênticas romarias ao Estádio da Luz ou onde quer que o Benfica jogava. Viu-se uma massa adepta fervorosa, que ajudou o clube nos momentos difíceis, que deu a mão na hora de mudar de estádio, que colaborou na construção do Estádio da Luz (o velhinho), que tinha uma palavra a dizer nas decisões do clube (a contratação de estrangeiros foi a principal). Um Benfica que ganhava títulos, que contratava pela certa, que mantinha a espinha dorsal da equipa de ano para ano.


 


Tudo isso acabou.


 


Hoje em dia, o que temos? Temos um benfica1 amorfo e sem chama,um benfica que não hesita em se libertar das suas referências, dos poucos jogadores que ainda podem transportar alguma da mística de outrora. Um benfica que não passa duma "ponte aérea para a Europa", onde os jogadores não se importam que a equipa ganha ou perca, contando que o salário esteja no banco no final do mês e que, dali uma época ou duas, estejam noutras paragens. Um benfica onde, em vez de se investir nos activos do clube - ou nos que estão emprestados ao clube e que mostram algum valor - se compram contentores de jogadores, sem garantias de qualidade da grande parte - ou de todos, mesmo; e onde alguns desses jogadores são envolvidos em estranhas negociatas com propósitos terceiros.


O que me assusta é que esta versão do benfica foi escolhida pelos sócios. Foram os sócios que votaram para que as coisas continuassem assim.


 


Luís Filipe Vieira subiu à cadeira presidencial do Benfica a 3 de Novembro de 2003 - há oito anos - e, em todo este tempo, o clube ganhou dois Campeonatos, uma Taça de Portugal, uma Supertaça e três Taças da Liga. Com oito anos de mandato, Pinto da Costa havia dado ao Porto quatro títulos de campeão nacional, acompanhados de duas Taças de Portugal, quatro Supertaças, uma Taça dos Campeões Europeus, uma Taça Intercontinental e uma Supertaça Europeia. Não querendo entrar sobre a legitimidade das conquistas azuis-e-brancas, a verdade é que, mesmo com a distância temporal entre os dois períodos, me parece muito pouco aquilo que o benfica conquistou nestes anos. Pode-se dizer que a culpa não é de Vieira, pode-se dizer que os culpados foram os antecessores, que minaram o Benfica até ele se transformar no benfica de hoje. Agora, quando se recua no tempo - para os que não possuem as palas nos olhos - e se relembra que um dos apontados como responsável pelo início da hecatombe, Manuel Damásio, ao ver que havia falhado, pediu a demissão do cargo de presidente. Ao invés, Vieira continua agarrado à cadeira, gritando e bramindo contra os "abutres", os "garotões que se querem apropriar do Benfica", que, graças a ele, o "Benfica é um produto muito apetecível" e que, quando ele chegou, "o Benfica só tinha as pedras da calçada", como se ele fosse uma espécie de Messias que iria recolocar o Benfica no topo da Europa, como tão propalado durante as inúmeras entrevistas que deu.


Na temporada passada (2009-10), deu mostras de poder lá chegar, de facto, com uma equipa a jogar um futebol fantástico, a ser demolidora, a não dar hipóteses aos adversários - porém, a apenas conseguir fazer a festa de campeão na última jornada. Parecia que o Benfica estava a surgir de novo. E, quando se julgaria que, na temporada seguinte - esta - se veria um Benfica com garra, a defender o estatudo de campeão com brio, a contrariar a hegemonia do Porto... o que se viu foi uma monumental colecção de gaffes, um plantel sem substitutos de altura para colmatar as saídas de pedras fundamentais - especialmente a de Ramires - e a penar com os frangos dum guarda-redes pago a peso de ouro. Viu-se o Porto humilhar completamente o campeão nacional, sem os adeptos terem direito, sequer, a um pedido de desculpas. Viu-se o Porto sagrar-se campeão na Luz, com a rábula dos aspersores e do apagão a darem ainda mais uma machadada nos já de si escassos valores ainda sobreviventes do Sport Lisboa e Benfica fundado por Cosme Damião. E, mais uma vez, não houve explicação oficial, não houve comentário, nada. Viu-se um benfica ser eliminado da Taça UEFA (Liga Europa, digo), por um Braga perfeitamente ao alcance (?) do clube de Lisboa, e, mais uma vez, não se ouviu comentário nenhum proveniente do clube - aliás, os jogadores até foram desviados no aeroporto aquando da chegada para não terem de levar com os adeptos que foram lá receber a equipa e pedir explicações. Viram-se cargas policiais contra adeptos benfiquistas, instigadas pelas próprias chefias do clube, especialmente contra adeptos pacíficos cujo único pecado que cometeram foi sair de casa e irem ao estádio apoiar o seu clube. E, mais uma vez, a direcção não fez nada para meter as coisas em pratos limpos. Viu-se um clube a festejar a conquista da Taça da Liga como se se tivesse ganho uma competição europeia. Viu-se um presidente que, nas horas de crise, andava a passear pelo Brasil a passear, à laia de férias. Um presidente que nunca podia ver os jogos do Benfica, ou que saía a meio. Um presidente que transformou os sócios do Benfica em carneirinhos, que respondem "amén" a tudo o que o Grande Líder diz. Um presidente que, antes de se confessar virtuoso benfiquista, como presidente do Alverca2, celebrou vitórias sobre o Benfica abraçado a Pinto da Costa. Um presidente condenado por roubo, que nunca se arrependeu do que fez.


 


Para mim, chega. Este não é o Benfica que aprendi a amar e a respeitar. Estas não são as pessoas que eu quero ver no Benfica. Este já deixou de ser o Benfica dos seis milhões, para passar a ser o benfica dos 90%. E como, nitidamente, não faço parte dos 90%, vou fazer algo que me custa bastante, que nunca pensei que tivesse de fazer: vou cortar o meu cordão umbilical. Vou deixar de torcer pelo Benfica como até agora, deixar de vibrar com os golos relatados pelo Pedro Sousa. Sinto que uma parte de mim está a morrer, mas é assim a vida.


No dia em que haja um projecto credível à frente do Benfica, que haja uma gestão de Benfiquistas à frente do clube, que o benfica volte a dar lugar ao Benfica, voltarei ao estádio, a torcer pelo Glorioso. Até lá, não contem comigo.


 


Adeus, SLb.


 


 


 


 




1- em letra pequena para distinguir do Verdadeiro Benfica que vi e amei.


2- clube que, depois da saída de LFV para o Benfica, misteriosamente faliu.

disfunção original de Rodolfo Dias às 12:02
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