12.08.15

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Os grandes incêndios chegaram à minha fatia de paraíso, ao meu sanctum sanctorum. Algo que não acontecia há, pelo menos, sessenta anos aconteceu em 2015.

 

Foi por meados do mês passado que as chamas começaram a consumir mato em dois pontos relativamente próximos da freguesia de São Martinho das Amoreiras, concelho de Odemira, ambos junto à EM 503. Falou-se que foi fogo posto (o que não é de todo impossível, com dois fogos a começarem praticamente no mesmo tempo em dois sítios distantes entre si cinco quilómetros), falou-se que foram bocados de um pneu rebentado de uma camioneta de transporte de cortiça que caíram nos pastos à beira da estrada e atearam o incêndio. Não sei qual a verdade, nem sequer sou investigador de incêndios para apresentar uma teoria plausível. Nem interessa. Interessa, isso sim, é falar nas chamas monstruosas que pude ver a consumirem sobreiros e azinheiras e estevas e pasto e tudo o que apareceu. Interessa falar nos rugidos que as labaredas libertavam assim que ganhavam alturas superiores a vinte metros. Interessa falar dos gritos agonizantes de pessoas cujas habitações estavam na rota de uma das frentes do incêndio, que se ouviam claramente a quem estava a alguns quilómetros de distância e sem ser preciso o vento (praticamente inexistente nessa altura) para ajudar a propagar o som. Interessa sim falar em como rezei que o vento não se levantasse com força, visto soprar uma brisa ligeira, nem se virasse para que o incêndio não se propagasse na nossa direcção. Interessa sim falar de como o aparecimento de dois aviões de combate a incêndios fez lembrar aqueles filmes de acção em que os maus estão quase a conseguir dominar o mundo e, de súbito, aparece o herói e salva o dia. Interessa falar de como, seis horas depois do fogo ter começado, os aviões partiam com a missão cumprida e o incêndio ter sido dado como "em resolução", após ter envolvido 278 operacionais, 90 meios terrestres e 7 meios áereos.

 

E importa falar dos bombeiros. Talvez fira algumas sensibilidades, talvez, no final, eu acabe por ouvir alguns insultos. Talvez me acusem de ser injusto e ingrato. Só que, por muita boa vontade que tenha, não posso louvar a actuação dos "soldados da paz". Em primeiro lugar, demoraram a chegar à povoação da Corte Malhão, que se encontrava mesmo na rota do incêndio, porque ficaram retidos numa das pontas do incêndio devido à EM 503 estar com fogo de ambos os lados e não conhecerem caminhos alternativos – apesar de estarem em contacto via rádio com pelo menos uma pessoa que conhece bem a zona – e mesmo com corporações de bombeiros algarvias que, em podendo ir por um caminho mais curto, foram dar uma "volta ao bilhar grande" e ficando naturalmente encalhados. Depois, após esse obstáculo ter sido de alguma forma solucionado, muitos deles colocaram-se junto a algumas das casas mas ficaram de plantão, de braços cruzados, não se movendo no intuito de tentarem defender as habitações, parecendo ficarem à espera de… algo. As labaredas chegaram muito perto de algumas casas – quase rente às paredes, mesmo! – tendo sido necessário recorrer a algumas máquinas de rastos para abrirem aceiros e cortarem o avanço das chamas; só que, em muitos dos casos, as casas apenas tinham pasto rasteiro, perfeitamente controlável, sendo perfeitamente possível e exequível impedir sequer que as chamas ali chegassem… porque não se tratou logo disso em vez de fazer as pessoas sofrer com o aproximar daquela frente de incêndio? E, ainda relacionado com o mesmo assunto: quando se vê, já dias depois do incêndio, a área ardida e se constata que o fogo progrediu durante algum tempo por uma pastagem rasteirinha, sem mato nem árvores, sem qualquer oposição e acabou por queimar árvores e hortas e postes telefónicos, uma pessoa pergunta-se "porque é que os bombeiros não apagaram o incêndio ali, onde era fácil dar-lhe luta?". Não sei também que rescaldo foi feito porque, no dia seguinte, já depois do fogo estar dado como "em resolução", ainda se encontravam zonas aqui e ali onde se vislumbrava uma linguazita de fogo e não se viam bombeiros ao pé e porque, quase uma semana depois depois, ainda se encontrou uma árvore a arder. OK, talvez possa ser eu que não sei como se processa o rescaldo de um incêndio de mato, esta até posso dar de barato.

 

Bom, apesar de tudo, não arderam casas nem armazéns (ardeu um monte, mas já estava abandonado faz anos) e não houve danos pessoais – por pouco: um dos helicópteros de combate aos incêndios, após despejar o conteúdo do "balde", aproximou-se em demasia de um poste de electricidade e o balde embateu nos cabos, dando uma pirueta esquisita e quase passando por cima da hélice traseira, fazendo com que o helicóptero tivesse de fazer uma aterragem de emergência ali perto. O que há agora é uma enorme floresta de cotos queimados, esqueletos de sobreiros transformados em carvão, um cheiro a cinzas e a queimado sempre que se chega à aldeola vindo de São Martinho. Quem lucrou com isto? Não sei. Mas sei quem perdeu. Perderam as pessoas que aqui se dedicam à extracção de cortiça dos sobreiros, uma vez que uns valentes hectares de floresta de sobro está irremediavelmente perdida, perderam as pessoas daquela área, pois agora têm de conviver com uma enorme mancha cinzenta à sua porta, e, no fundo, perdemos nós todos, pois são menos árvores para renovar o oxigénio.

 

Sinto-me triste.

 

PS: é verdade que os bombeiros recebem por área ardida?

disfunção original de Rodolfo Dias às 10:49
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