15.10.16

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Ultimamente, por motivos pessoais, tenho ido bastantes vezes à terrinha – que para quem ainda não sabe, é no sudoeste do Baixo Alentejo. E como a malta até é um bocado avessa a pagar portagens, a esmagadora parte do percurso é feita pelo IC1, apesar do troço Palma – Nó de Grândola estar um autêntico nojo. E, aos sábados de manhã, é normal passar por uma pessoa que me deixa bastante envergonhado comigo mesmo.

Não sei como se chama, não sei quem é, e não sei como lhe hei-de chamar; ainda assim, apelidei-o de "paraciclista". É uma pessoa (não sei se é homem ou mulher) que, pelo que me é dado parecer, não tem uma ou as duas pernas na sua totalidade; todavia não deixa que isso a impeça de andar na estrada: pedala com as mãos, não com aquelas bicicletas com que se costuma ver os atletas paraolímpicos, mas com uma outra em que vai deitada de barriga para cima, paralela ao chão; logicamente, para não correr o risco de não ser visto por algum carro, tem uma bandeirinha laranja atrás. Todos os sábados em que tenho feito a viagem, de manhã, o encontro a uma boa velocidade por esse IC1 fora.

E agora a pergunta que talvez alguém esteja a fazer: "porque é que essa pessoa te deixa envergonhado contigo mesmo?" Pois, porque eu sou uma autêntica batata de sofá (traduzindo do original inglês), que já não corre atrás de uma bola de futebol há una doze anos e que só pedalava nas bicicletas do ginásio quando lá estava inscrito… e não tenho grande vontade de retomar actividade física. Quer dizer: andar, ando, faço caminhadas e já cheguei a fazer quase uns 20 km debaixo de Sol abrasador. Todavia mais que isso já não estou para me maçar… e cruzando-me com uma pessoa fisicamente limitada que faz das fraquezas forças e que não se deixa deter pela infelicidade faz-me sentir que eu é que sou, de facto, o limitado. E que a limitação está é nas nossas cabeças.

(Não vou falar dos atletas paraolímpicos senão sinto-me ainda mais pequenino e insignificante)

disfunção original de Rodolfo Dias às 17:46
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26.07.16

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O texto que segue talvez tenha tiques de parvoíce. Mas como o espaço é meu e eu coloco aqui o que me der na real gana, que se lixe. Além do mais, como estou a atravessar uma fase algo negativa, nada como dar asas à escrita para distrair.

O Rodolfomobile morreu. Aquele "Ferrari dos pobres" que me acompanhou durante os últimos oito anos por essas estradas nacionais percorreu o seu último quilómetro e partiu rumo a esse ferro-velho celestial para onde vão os carros quando chegam ao fim da vida. Alguns de vós poderão achar que isto é demasiado parvo e que um carro, qualquer carro, não merece tamanha pieguice, mas... nunca se esquece o nosso primeiro. Seja lá o que for o assunto, seja a primeira vez que tivemos intimidades com uma rapariga, a primeira vez que fomos trabalhar. E o Rodolfomobile foi o meu primeiro carro. Um Seat Ibiza Mk. 1 de 1988, preto, quadradão, que fora de um tio meu e que o meu pai depois "reencaminhou" para mim. Chegou-me às unhas com cerca de 85 mil quilómetros percorridos (sim, durante a vida nunca teve muito uso), faleceu com mais de 144 mil. Era um carro que deu problemas ao nível do radiador e que demoraram anos a ser resolvidos (apesar de nunca a 100%), sem ar condicionado nem vidros eléctricos e, durante algum tempo, sem ar quente no habitáculo - o que significava que viajar nele durante o Inverno era um castigo. Tinha uma ponteira da direcção que fazia banzé sempre que se arrancava em curva, o vidro da porta traseira do lado esquerdo não abria, a alavanca das mudanças tinha um buraco no centro da "maçaneta" devido ao Sol ter queimado o plástico todo. E, mesmo assim... tinha carisma.

O Rodolfomobile não era só um carro, foi um companheiro insaciável de muitas viagens e aventuras (insaciável pois tinha um apetite voraz por gasolina que quase trinta anos de vida não conseguiram diminuir, antes pelo contrário). Levou-me de férias para a terra incontáveis vezes, de férias para outros lados, atrás de comboios, de casa para o trabalho e de regresso, levou-me à descoberta de centenas de marcos quilométricos, levou-me ao encontro das pessoas que amava, levou-me inclusivamente algumas vezes ao Céu. Em oito anos, fiz com ele o que qualquer um fez ou deve ter feito com o seu primeiro carro. E... não vou mentir: tinha a secreta ambição de o conseguir preservar, restaurando-o até ficar quase como novo - mas a vida nunca mo proporcionou, nunca consegui ter finanças para começar esse projecto. E, há dias, isso tornou-se inviável, com um ataque cardíaco fulminante que o deixou em coma irreversível. Perante os factos, e com enorme pena minha, nada mais houve a fazer senão desligar-se a ficha e proceder-se aos arranjos para o funeral. Neste momento, o Rodolfomobile ainda poderá existir, mas já apenas como um monte de ferro-velho, uma carcaça já sem algumas peças, ou algo intermédio.

Neste momento, a busca para um substituto já começou, e até pode ser que o escolhido seja um carro muito melhor, muito mais confortável, com ar condicionado, vidros eléctricos e essas coisas todas. Pode ter isso tudo - mas não terá o carisma do Rodolfomobile. Aquele carro tinha uma identidade própria, coisa que os carros de hoje em dia já não possuem, todos cheios de electrónicas e computadores e cinzentismo.

Já tenho saudades do Rodolfomobile.

disfunção original de Rodolfo Dias às 19:50
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18.05.16

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Vou retornar a um assunto que já abordei faz tempo. Bastante tempo, ao que parece. Isto porque em onze anos nada mudou.

Ao longo da história, a freguesia de São Martinho das Amoreiras tem andado a balançar entre dois municípios, o de Odemira e o de Ourique. Eventualmente, acabou por se tornar parte integrante do primeiro. Infelizmente.

Infelizmente porque o “maior concelho de Portugal” possui uma câmara que enche a boca para falar do seu tamanho mas que depois apenas se foca naquela faixa litoral que vai de Vila Nova de Milfontes a Aljezur, pejada de praias e que é um pólo de atracção para o turismo. E, desde os tempos que me lembro, as atenções que a cúpula camarária tem deitado ao restante território têm sido mínimas ou inexistentes – o que levou a que a vasta maioria do concelho esteja, na sua esmagadora maioria, votada ao abandono. E nem mesmo assim as pessoas e partidos que passam pela Câmara Municipal se movem para tentar dar condições de vida às poucas pessoas que ainda habitam nas freguesias interiores do concelho de Odemira. Claro, as aldeias e lugares possuem estradas alcatroadas, luz eléctrica… mas e as pessoas que não habitam nas aldeias e lugares? E quem vive no seu monte? Não é um ser humano como os habitantes do litoral? Não paga IMI como os do litoral? Como se justifica que, em 2016, ainda haja pessoas sem acesso a algo tão básico como a electricidade apenas e só porque a autarquia não está para gastar 50 mil euros para levar a luz à casa das pessoas? Em vez disso, colocou painéis solares nos montes das pessoas que ainda residem nos confins do concelho, o que seria algo de muito justo e nobre e uma alternativa viável… se a luz solar instalada tivesse potência para se ligar um frigorífico ou uma máquina de lavar roupa, ou se fosse possível ter mais do que uma tomada em toda a casa, o que não é o caso. Resultado? Quando há Sol, pode-se estar relativamente à vontade, ver-se um pouco de TV, mas nos dias mais cinzentos ou invernosos tem de se ter cuidado com a racionalização da luz: apenas para a iluminação.

Em Ourique, foi agora concluída a electrificação de duas zonas do concelho, onde foram gastos 75 mil euros no total. No concelho vizinho sempre houve muito a política de fazer, mesmo sem dinheiro (e daí terem acumulado uma dívida brutal, da qual têm estado a recuperar), enquanto em Odemira nunca se fazia porque “não havia dinheiro”; ironicamente, em 2014, a dívida odemirense era superior à de Ourique. Por causa desta diferença de filosofias camarárias é que o nível de vida dos habitantes do concelho de Ourique é bastante superior ao dos de Odemira. Por isso é que, voltando acima no texto, ainda temos habitantes da freguesia de São Martinho sem acesso a electricidade mas com “vizinhos” a um quilómetro que dispõem dessa mais-valia. Da última vez que a electricidade foi espalhada por mais uns montes ao redor do lugar da Corte Malhão, chegou-se ao cúmulo de se levar o cabo à porta de montes abandonados e em estado de ruína… enquanto outras casas habitadas eram ignoradas. E anda-se nesta batalha há mais de vinte anos, com quilos e mais quilos de promessas adiadas, pedidos arquivados, favores esquecidos. Apenas na altura das eleições se garante que “a electricidade vai chegar a todo o lado do concelho”, todavia isso nunca se chega a verificar.

O lema do concelho de Ourique é “por Ourique, pelos ouriquenses”; e o de Odemira, como será? “Pelo Litoral, pelos habitantes do litoral”?

disfunção original de Rodolfo Dias às 21:05
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10.04.16

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Há coisas que são mais fortes que nós. Que, por mais força que façamos, não conseguimos alterar e ser de outra maneira.

Cada um tem os seus rituais quando assiste a um jogo de futebol da sua equipa – não me digam que não. Ou usar sempre a mesma peça de roupa, ou ir sempre da mesma maneira ao estádio, ou comer a mesma coisa antes do jogo, todos nós (ou muitos de nós, vá) temos aquela superstiçãozita que acreditamos que dá sorte antes de qualquer partida. E eu não sou excepção – o que, per se, é estúpido pois eu não sou supersticioso… excepto no que respeita ao futebol. E, por muito pouco que demonstre, sofro demasiado com a puta merda da bola. De tal forma que a minha superstição é não ver o jogo, isolar-me de tudo e todos, desligar telemóveis e apenas regressar ao mundo quando tiverem passado duas horas do início do jogo. O que, esta temporada, até tem dado frutos – ou por outra, quando quebrei esta rotina a coisa deu merda. No Benfica - Sporting para o campeonato fui arrastado para o Almada Fórum, no Benfica - FC Porto tive um jantar. E como, quando faço este ritual a coisa até nem tem corrido mal, vai-se continuando.

Ontem lá tive de quebrar a rotina mais uma vez. Tive de ir ao Alentejo ajudar na animação de um serão nos confins do concelho de Odemira, portanto o isolamento estava fora de questão. A casa em questão não tinha Sport TV, o que era uma benesse, mas estava rodeado de benfiquistas sempre a falar no jogo e preocupados com o resultado. Para piorar a situação, enganei-me na hora de jogo e, quando dei por ela, o telemóvel já tinha recebido a notificação do golo da Académica… tornando impossível qualquer ideia que eu pudesse ter de me isolar. Talvez pudesse e devesse ter ido à procura de um café com a TV do Oliveirinha, mas eu vivo na convicção que o meu coração há-de ceder quando eu estiver a assistir a um jogo do Benfica, por isso nem me mexi – a não ser ser para mudar a mão da qual estava a roer as unhas até aos cotovelos. Ufff, do mal o menos, o Mitroglou marcou dali a bocado e o jogo chegou ao intervalo assim, informação que passei a quem estava ali ao pé também. Segunda parte e a hora de jantar a aproximar-se, com uma mudança de metade das cordas da viola pelo meio (mau estado obligée). E sempre que podia, lá ia ver se havia uma notificação nova no telemóvel…

Faço aqui um parênteses para falar da cobertura móvel no concelho de Odemira. Um nojo. Seja qual for a operadora, apesar da Optimus NOS ainda conseguir ser a menos ruim. Quem passa a vida a apregoar “cobertura em 100% do território nacional” devia ter uma avaria no carro aqui na zona e depois tentar entrar em contacto com ajuda. Miserável, miserável. Anda-se tão preocupados em arranjar telemóveis 4G à malta e nem se preocupam em disponibilizar sequer 1G ou 2G em algumas zonas do país? Isto tudo porque a cobertura da rede onde eu estava era má (no mínimo) e houve alturas em que não chegava nada, nem os dados do jogo actualizavam, tudo enquanto o telemóvel andava a saltar do ‘H’ para o ‘3G’ e vice-versa.

Continuando… a operação na viola foi sendo feita com um nó na garganta e mãos congeladas, tudo porque não surgiam notícias de Coimbra nem aparecia um apito a assinalar golo de alguém. Até que, depois de mais uma corda metida e de já se estar nos finalmentes da operação, vou ver o telemóvel, está lá uma notificação e é o 1-2! Imediatamente levantei os braços no ar e soltei um suspiro de alívio, as probabilidades de aqueles rapazes continuarem na liderança aumentara exponencialmente – o que, minutos depois, se confirmou. Foi como se um peso de 16 t me tivesse saído de cima da cabeça.

Há quem leia isto (LOL) e me considere um “falso benfiquista” (não seria a primeira vez) por andar arredio dos estádios (náo ter fonte de rendimentos também não ajuda) e nem ver ou ouvir (algo que fazia sempre) os jogos. Já estou naquela fase em que me estou a cagar para as opiniões alheias: vivo e sofro pelo Benfica à minha maneira e não me considero nem mais nem menos benfiquista por isso. E quarta-feira vou-me voltar a enfiar na caverna – isto se não tiver planos.

disfunção original de Rodolfo Dias às 10:20
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17.03.16

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Devia falar por aqui mais vezes, é um facto. Mas o Facebook rouba-me a vontade de vir largar aqui postas. Não que passe a vida lá enfiado, atenção; todavia, tropeço em algo que me faz rir no dia-a-dia e acabo por despejar lá, escrevo uma frase ou duas e pronto. Mas desta vez vou forçar-me aqui, a escrever o que me deixou na necessidade de disfuncionalizar um bocadinho (esta coisa de inventar palavras é muito in, não é?).

Hoje, pela primeira vez na minha vida, presenciei um capítulo de uma batalha pelos direitos parentais de uma criança. E confesso que não gostei do que vi - se calhar acho que qualquer um não gostaria... mas abordemos o assunto com o máximo de precaução para tentar não ferir susceptibilidades (que hoje em dia temos de ser politicamente correctos ao máximo senão em menos de nada temos uma multidão à nossa porta com archotes e forquilhas pronta a linchar-nos).

Hoje fui ter com uma amiga (chamemos-lhe Filipa, um nome fictício) - sim, eu tenho amigas do sexo feminino. Depois de alguma conversa, acompanhei-a para ela ir buscar o filho à família do pai da criança, pois, depois do nascimento do rebento, pai e mãe desavieram-se e separaram-se, como tantos casais por esse mundo fora, e agora não se podem ver sem começarem a discutir, mesmo com os membros da família do ex-conjuge. A coisa tomou contornos de tal forma que a justiça já está metida ao barulho e está acordado que cada pai pode passar um fim-de-semana com o filho, indo-o buscar a determinada hora. E hoje foi o dia de Filipa ir buscar a criança.

Se todas as coisas corressem bem, à hora regimental, a criança estaria pronta para ir com a mãe; todavia, devido a alguns problemas (quem sabe derivados de toda esta situação), ela anda na terapia da fala. E assim que chegámos (com um ligeiro atraso, admito), a criança ainda não estava despachada, pois a consulta da terapia acaba à hora a que a custódia troca - aparentemente. Durante o tempo de espera, Filipa, que é uma rapariga de "pelo na venta", esteve na rua, a mandar vir com o Universo, a mandar bocas alto e bom som - que as pessoas que estavam em casa decerto ouviram.

Quase meia-hora depois da hora prevista, aparece o carro com a criança, o pai, o avô e a companheira actual do pai. E logicamente começa um bate-boca por causa do atraso, por causa do comportamento de Filipa, dos direitos de cada um, olharam o meu carro a pente fino, perguntaram-me onde tinha a cadeirinha, ao verem que não tinha armaram (ainda mais) um pé de vento para que eu não os levasse no carro, e quando Filipa se resolveu a levar a criança consigo e ir de transportes para casa (tendo de apanhar autocarro, comboio e autocarro para lá chegar) anunciaram alto e bom som que me iam seguir para garantirem que eu não lhes iria dar boleia. E, efectivamente, depois de Filipa ter abalado a pé com a criança rumo à paragem do autocarro, durante um bocadinho tive um carro atrás de mim - e, para não chatear mais os senhores, pois eles pareciam estar chateados, até fiz questão de esperar por eles. Um pouco mais à frente, virei para um lado e eles seguiram para o outro. Enquanto eu dava uma volta a uma rotunda (porque, a bem dizer, eu me enganei no caminho), vi o carro dos familiares do marido já a voltar para trás e duas pessoas - o pai e a namorada - a correrem desabridamente rumo a um ponto desconhecido. E assim acabou aquele momento de tensão... pelo menos para mim. Segundo vim depois a saber, o carro com o avô da criança entreteve-se a seguir o autocarro onde seguiam Filipa e a criança até à estação do comboio, ficando na zona envolvente à espera que eles entrassem no comboio.

Bom, isto agora é tudo muito giro de ler e debater e pensar. Todavia, como eu disse ali em cima, esta foi uma batalha de uma guerra que terá sempre uma vítima: a criança. Por muito que se tente escudar e proteger os filhos das discussões e zangas e birras entre membros familiares, eles apercebem-se de tudo e acabam por sair magoados. Ao mesmo tempo, é triste ver que aquela criança é "usada" como arma de arremesso para um lado tentar levar a melhor um sobre o outro. Todos querem o melhor para a criança, acham (ou dizem) que o seu lado poder-lhe-á dar tudo o que ela necessita para ser feliz; todavia parecem contentar-se mais em fazer os possíveis para que quem está do outro lado sofra a pena de perder todos os direitos parentais sobre aquela criança, provocando e tentando fazer com que o outro lado cometa uma imprudência que possam apresentar na justiça. Só que... que solução existe para estes casos, em que os pais quase parecem querer matar-se uns aos outros? Que fazer aos filhos para que eles sejam poupados a estas situações? Retirá-los a ambos os pais? Família de acolhimento? Decidir logo na altura entregar a custódia a um dos pais e não haver cá partilhas?

Tomar partido por alguém sabendo apenas a versão de um lado é errado; por isso abstenho-me de dar a minha opinião sobre este caso - até porque eu de jurista tenho zero e percebo ainda menos que zero destas coisas de leis e direitos e deveres quando mete filhos (até porque ainda não tenho nenhum). Agora que é algo que merecia uma resolução definitiva sem que os advogados de ambos os lados andem a deixar passar o tempo e a deixar arrastar ainda mais a coisa, ai isso merecia. Mais que não seja, pelo bem da criança - afinal de contas a "responsável" por toda esta situação e a que menos culpa tem nesta autêntica novela... e de quem toda a gente se esquece enquanto arrancam os cabelos uns dos outros. É triste.

disfunção original de Rodolfo Dias às 23:31
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11.01.16

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Morreu o Major Tom. E o Ziggy Stardust. E o Halloween Jack. E o Thin White Duke. E o Aladdin Sane. E o Homem que Vendeu o Mundo. E que, depois, Caiu na Terra.  E o Jareth, o Rei dos Goblins. E o Pierrot. Todas estas personas, e mais algumas, povoaram o nosso imaginário desde o fim da década de 60. Tudo por culpa do cancro, esse eterno filho-da-puta que passa a vida a ceifar quem não merece.

Há coisas que não percebemos na altura e que depois de algum tempo encaixamos. Há poucos dias, David Bowie tinha feito 69 anos, fazendo coincidir essa data com o lançamento do seu último trabalho, "Blackstar" - e o vídeo que acompanha o segundo single, "Lazarus", era algo muito estranho, onde se vê um Bowie a contorcer-se numa cama de hospital a dizer que "tenho cicatrizes que não podem ser vistas", enquanto outro Bowie, vestido de negro, continua a escrever e a criar enquanto o outro definha; depois o Bowie criador desaparece dentro de um armário. Poderá ter sido esta a forma do Camaleão se despedir dos fãs? Partindo deste mundo deixando uma prenda de despedida para os fãs? Penso nisso e lembro-me de outro caso, o de Freddie Mercury, outro dos grandes génios musicais de sempre: quando a SIDA começou a afectar e a debilitar-lhe o corpo, ele, indiferente à doença, começou a gravar, a pedir aos colegas dos Queen para lhe darem material para gravar, para que "quando eu desaparecer, vocês possam acabar as músicas". Pessoas que, apesar de saberem que estão a morrer, querem deixar um legado, um agradecimento aos fãs que cresceram a ouvir as suas músicas.

Ao mesmo tempo há algo que me aflige. Com o desaparecimento de mais um ícone musical, começam a faltar artistas que façam músicas que resistam ao teste do tempo. Nos dias de hoje, o que temos são Justin Biebers, Beyonces, 1Ds, David Guettas e similares que fazem umas músicas que enxameiam as rádios na altura mas que mais cedo ou mais tarde desaparecem para nunca mais serem lembradas. Passamos de mestres creativos para malta dependente da criatividade alheia para poderem ser alguém - o que é triste. Por isso é que a música de hoje em dia é uma tristeza, um desconsolo, algo que até dá gases ouvir.

Que descanses em paz, David, nessa lata onde estás sentado bem por cima do mundo.

disfunção original de Rodolfo Dias às 12:05
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06.11.15

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Toda a gente sabe o que são melões. Sim, antes de mais, é um fruto ainda relacionado com as melancias. Mas os melões têm outra "aplicação prática": Dizermos que "estamos com um melão" é do mesmo calibre de "estar com azia": ficarmos lixados da vida por causa de alguma coisa que não nos correu de feição. Normalmente aplica-se (mas não é exclusivo a) ao futebol, quando a equipa por quem torcemos perde um jogo. Como não tenho mais nada para colocar no web-log e apetece-me dar vida à coisa, e como, por estes dias, só se tem falado mesmo do guerras parvas entre gentes do Sporting e gentes do Benfica, e sabendo que eu sou um benfiquista assumido, vou relatar a primeira vez que me senti com um melão enorme.
Estávamos no dia 16 de Maio de 1993. Nesse dia jogava-se a 31ª jornada do campeonato, e o Benfica estava na frente com um ponto de vantagem sobre o FC Porto. Nessa tarde ambos jogavam fora de cada: Os azuis-e-brancos iam a Trás-os-Montes jogar com o lanterna-vermelha e já condenado Desp. Chaves, enquanto os encarnados iam a Aveiro bater-se com o Beira-Mar, ainda a lutar por um histórico apuramento europeu, no complicadíssimo Mário Duarte, onde o Sporting já havia deixado um ponto. Como sempre, acompanhei o jogo do Benfica pelos relatos radiofónicos da Renascença, nos tempos em que realmente valia a pena fazê-lo, com sete ou oito jogos a decorrerem ao mesmo tempo, os golos a acontecerem ao mesmo tempo em estádios diferentes... De facto era uma outra era, mais interessante que a actual. Mas adiante.
O Chaves – FC Porto era à noite, portanto o Benfica tinha de ganhar para fazer pressão nos azuis-e-brancos e manter a liderança; só que os “encarnados” não conseguiam fazer nenhum golo ao Beira-Mar. As coisas complicaram-se aos 60 minutos, quando o Yuran viu o segundo amarelo e foi expulso. Nessa altura a minha mãe veio ao meu quarto dizer-me que íamos sair, visitar uns tios meus. Não tive outra opção senão ir, embora de má vontade – e de coração apertado, porque o Benfica não marcava... Mesmo assim, o rádio do Yugo 45A (sim, nós tivemos um carrito desses!), por cortesia ao pirralho, lá foi na Renascença. Sempre que alguém interrompia com um "GOOOOOOOOOOOOOOOOOOLOOOOOOO" eu fazia figas para que, a seguir, o relatador acrescentasse um "DO BENFICA!!"; todavia isso nunca aconteceu; e eu a começar a ficar nervoso...
Os minutos foram passando, comecei a roer as unhas até aos cotovelos (mentira, nunca roí uma unha que fosse na vida) e a sentir as palmas das mãos húmidas, rezando a todos os santinhos para que o Rui Águas ou o JVP, ou o Rui Costa, ou o Paneira conseguissem bater a bem ordenada defensiva aveirense e fazer o golinho que assegurasse a vitória e a liderança. Mas o Benfica não marcava...
Até que surgiu mais um "GOOOOOOOOOOOOOOOOLOOOOO...", e, como sempre, fiz figas; só que, para meu grande desgosto, o que veio a seguir foi "... DO BEIRA-MAR!" Tinha sido o Dino, o terrível Dino, o Dino Furacão, cujas orelhas pareciam um prato duma antena parabólica, a fuzilar o Silvino e a fazer o 1-0. Já não havia tempo para muito mais. O Pacheco ainda seria expulso, para ajudar à festa, e o Benfica acabaria o jogo derrotado e com nove jogadores. E com a liderança em perigo.
Escusado será dizer que nessa tarde não tive apetite para muito mais. A visita aos meus tios teve o condão de me deixar ainda mais aziado porque o meu tio era um sportinguista fanático e fartou-se de gozar o bocado, a mandar bocas e a picar, tudo isto enquanto se preparava para ir para o clube ali da zona ver a bola, ver o Chaves – FC Porto (durante anos pensei que fosse ver o Sporting, pois equipou-se como tal, de cachecol e bandeira – mas esses já tinham jogado na véspera, no Funchal, perdendo 2-4 com o Marítimo) e ele queria ver o jogo com os amigos. Recordo-me que, após ele ter saído, eu meti a língua de fora na direcção da porta da rua, irritado (e porque não dizê-lo, aziado) com aquele gozo e porque na altura a minha mente de puto não pensei em nada de melhor para lhe responder. Ainda ficámos com a minha tia mais um bocado, os meus pais e ela na conversa, eu a remoer, até que viemos embora para casa. 

À noite, e apesar de “para lá do Marão mandarem os que lá estão” (o que não havia acontecido muito naquela época), oo Chaves deu luta, mas no final o FC Porto arrancaria uma vitória por 2-1 que confirmava a ascensão à liderança do campeonato – de onde já não sairia.

Hoje em dia não me tenho sentido muito afectado pelo futebol, pelo que não tenho sentido muitos melões (só mesmo em 2013, com a farândola de "minutos 92"), apesar de, está época, ter recebido atoardas a torto e a direito de sportinguistas emproados porque “nos roubaram o Jórjus”, porque ganharam a Supertaça ao Benfica, vão à frente do campeonato e ganharam convincentemente na Luz. Lá está: por mim, podem fazer ou dizer tudo desde que me deixem em paz – todavia, se me provocarem, desejo que vos caia um peso de 16 t em cima. No mínimo.

disfunção original de Rodolfo Dias às 13:41
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12.08.15

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Os grandes incêndios chegaram à minha fatia de paraíso, ao meu sanctum sanctorum. Algo que não acontecia há, pelo menos, sessenta anos aconteceu em 2015.

 

Foi por meados do mês passado que as chamas começaram a consumir mato em dois pontos relativamente próximos da freguesia de São Martinho das Amoreiras, concelho de Odemira, ambos junto à EM 503. Falou-se que foi fogo posto (o que não é de todo impossível, com dois fogos a começarem praticamente no mesmo tempo em dois sítios distantes entre si cinco quilómetros), falou-se que foram bocados de um pneu rebentado de uma camioneta de transporte de cortiça que caíram nos pastos à beira da estrada e atearam o incêndio. Não sei qual a verdade, nem sequer sou investigador de incêndios para apresentar uma teoria plausível. Nem interessa. Interessa, isso sim, é falar nas chamas monstruosas que pude ver a consumirem sobreiros e azinheiras e estevas e pasto e tudo o que apareceu. Interessa falar nos rugidos que as labaredas libertavam assim que ganhavam alturas superiores a vinte metros. Interessa falar dos gritos agonizantes de pessoas cujas habitações estavam na rota de uma das frentes do incêndio, que se ouviam claramente a quem estava a alguns quilómetros de distância e sem ser preciso o vento (praticamente inexistente nessa altura) para ajudar a propagar o som. Interessa sim falar em como rezei que o vento não se levantasse com força, visto soprar uma brisa ligeira, nem se virasse para que o incêndio não se propagasse na nossa direcção. Interessa sim falar de como o aparecimento de dois aviões de combate a incêndios fez lembrar aqueles filmes de acção em que os maus estão quase a conseguir dominar o mundo e, de súbito, aparece o herói e salva o dia. Interessa falar de como, seis horas depois do fogo ter começado, os aviões partiam com a missão cumprida e o incêndio ter sido dado como "em resolução", após ter envolvido 278 operacionais, 90 meios terrestres e 7 meios áereos.

 

E importa falar dos bombeiros. Talvez fira algumas sensibilidades, talvez, no final, eu acabe por ouvir alguns insultos. Talvez me acusem de ser injusto e ingrato. Só que, por muita boa vontade que tenha, não posso louvar a actuação dos "soldados da paz". Em primeiro lugar, demoraram a chegar à povoação da Corte Malhão, que se encontrava mesmo na rota do incêndio, porque ficaram retidos numa das pontas do incêndio devido à EM 503 estar com fogo de ambos os lados e não conhecerem caminhos alternativos – apesar de estarem em contacto via rádio com pelo menos uma pessoa que conhece bem a zona – e mesmo com corporações de bombeiros algarvias que, em podendo ir por um caminho mais curto, foram dar uma "volta ao bilhar grande" e ficando naturalmente encalhados. Depois, após esse obstáculo ter sido de alguma forma solucionado, muitos deles colocaram-se junto a algumas das casas mas ficaram de plantão, de braços cruzados, não se movendo no intuito de tentarem defender as habitações, parecendo ficarem à espera de… algo. As labaredas chegaram muito perto de algumas casas – quase rente às paredes, mesmo! – tendo sido necessário recorrer a algumas máquinas de rastos para abrirem aceiros e cortarem o avanço das chamas; só que, em muitos dos casos, as casas apenas tinham pasto rasteiro, perfeitamente controlável, sendo perfeitamente possível e exequível impedir sequer que as chamas ali chegassem… porque não se tratou logo disso em vez de fazer as pessoas sofrer com o aproximar daquela frente de incêndio? E, ainda relacionado com o mesmo assunto: quando se vê, já dias depois do incêndio, a área ardida e se constata que o fogo progrediu durante algum tempo por uma pastagem rasteirinha, sem mato nem árvores, sem qualquer oposição e acabou por queimar árvores e hortas e postes telefónicos, uma pessoa pergunta-se "porque é que os bombeiros não apagaram o incêndio ali, onde era fácil dar-lhe luta?". Não sei também que rescaldo foi feito porque, no dia seguinte, já depois do fogo estar dado como "em resolução", ainda se encontravam zonas aqui e ali onde se vislumbrava uma linguazita de fogo e não se viam bombeiros ao pé e porque, quase uma semana depois depois, ainda se encontrou uma árvore a arder. OK, talvez possa ser eu que não sei como se processa o rescaldo de um incêndio de mato, esta até posso dar de barato.

 

Bom, apesar de tudo, não arderam casas nem armazéns (ardeu um monte, mas já estava abandonado faz anos) e não houve danos pessoais – por pouco: um dos helicópteros de combate aos incêndios, após despejar o conteúdo do "balde", aproximou-se em demasia de um poste de electricidade e o balde embateu nos cabos, dando uma pirueta esquisita e quase passando por cima da hélice traseira, fazendo com que o helicóptero tivesse de fazer uma aterragem de emergência ali perto. O que há agora é uma enorme floresta de cotos queimados, esqueletos de sobreiros transformados em carvão, um cheiro a cinzas e a queimado sempre que se chega à aldeola vindo de São Martinho. Quem lucrou com isto? Não sei. Mas sei quem perdeu. Perderam as pessoas que aqui se dedicam à extracção de cortiça dos sobreiros, uma vez que uns valentes hectares de floresta de sobro está irremediavelmente perdida, perderam as pessoas daquela área, pois agora têm de conviver com uma enorme mancha cinzenta à sua porta, e, no fundo, perdemos nós todos, pois são menos árvores para renovar o oxigénio.

 

Sinto-me triste.

 

PS: é verdade que os bombeiros recebem por área ardida?

disfunção original de Rodolfo Dias às 10:49
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01.07.15

Buckets-of-Shit.jpg

(f...-se, que hoje abusei no tamanho do título...)

Durante anos, os Estados Unidos da América foram a terra do "sonho americano", onde qualquer pessoa podia seguir o seu sonho e atingir o sucesso. Nos dias de hoje, todavia, eu diria que os States já foram ultrapassados por um país bem mais pequenino: Portugal. E isto porquê? Porque não há idiota nenhum que não consiga ter sucesso - bastando, claro está, "cair em graça".

Quer dizer, todos nós reclamamos que Portugal é um país governado por ladrões e oportunistas, que se movem unicamente para encher os seus próprios bolsos: esse tema é longo de discutir; mas, se damos oportunidade de outros oportunistas e idiotas singrarem na vida e encherem-se de papel, que moral temos para reclamar dos engravatados partidários?

Mas enfim, essa questão ficará, possivelmente, para outra altura.

Esta posta (nome bonito, diga-se... deve ser do cheiro a peixe podre) é motivada por um acontecimento do dia de hoje que marcou a minha vida por completo: peguei num livro do Pedro Chagas Freitas. E li duas páginas do mesmo. A minha conclusão foi apenas e só uma: como é que é possível algo tão vazio de substância vender tanto, por Deus? Como é que é possível um livro cheio de frases órfãs de interligação entre elas estar nas listas dos livros mais vendidos em Portugal? Vejamos aqui alguns excertos retirados ipsis verbis até no formato e tudo:

      hoje estou triste porque não escreveste para mim,

      quando fazes beicinho o sol concentra-se no interior dos teus olhos, e tudo à volta escurece,

      e aqui estou eu a escrever,

      já estás a ficar melhor, estás?,

     o teu corpo contra o ar é uma espécie de atestado de incompetência para a natureza, como pode a matéria interromper o correr do tempo?,

      podia escrever hoje sobre o sorriso do teu biquini junto à piscina,

     as vezes que te amei nos meus pensamentos, e de que maneira, é melhor nem te dizer para não te chocar,

      desculpa,

      mas em todos os pensamentos acabámos com um orgasmo,

      que maravilha,

      és tão casta e tão esfomeada,

      no lugar onde estou já te despi várias vezes, e é possível, sim,

     não te rias e me venhas com essa ideia quadrada de que só se despe uma vez, porque depois está despido já,

      não está, amar-te é despir-te várias vezes no mesmo corpo, como se houvesse camadas de nudez,

      e há, só quem nunca se despiu ainda não o percebeu,

      está a ficar bom o texto?, serve-te para me quereres para todo o sempre?,

      (...)

 

original.jpg

A sério, há alguém a quem esta ladaínha toda faça algum sentido? Confesso que li uma página para a frente, para trás, de cima para baixo, de baixo para cima, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda e continuei sem perceber um cartucho daquilo. Também pensei que o livro estivesse escrito num idioma próximo do português mas cujas palavras tivessem significados diferentes - neste momento, é a única ideia que para mim faz sentido.

Gostava de conhecer uma confessa apreciadora dos livros e textos do Pedro Chagas Freitas; gostava que ela me explicasse qual a mensagem escondida no que ele escreve. É que, do meu ponto de vista, os conteúdos dos canhenhos de sua autoria são coisas que parecem sair de um gerador de textos aleatórios, que junta frases sem qualquer sentido umas com as outras, sem que haja um princípio, meio ou fim declarados e confessos, sem que haja um mínimo de fio condutor em todas e quaisquer páginas? Será que isto dos livros é como aqueles quadros que não passam de rabiscos ou esculturas que não passam que perfeitos mamarrachos e que, nos leilões são arrebatados por centenas de milhões de euros? Ou será esta a resposta feminina (sim, porque, convenhamos, a maioria de leitores dos livros do Pedro Chagas Freitas pertence ao sexo oposto) a revistas como a Penthouse, Playboy, Maxmen (nem sei se elas ainda existem, mas vocês percebem a ideia) ou a jornais, publicações em que não é preciso gastar muita massa cinzenta para as compreender?

Confesso que eu sou da velha guarda, prefiro ler livros com um fio condutor, que me prendam à acção, que me façam não o conseguir largar até chegar à última página, sem chegar ao final da meada, sem chegar àquela palavra de três letrinhas que assinala o término do livro ('fim', para os mais distraídos). Gosto de livros que me façam sentir que não dei o meu tempo por perdido ao dedicar-me à sua leitura. E isto, lamento... mas, durante os cerca de dois minutos que perdi a tentar decifrar os textos contidos naquelas páginas, senti neurónios a definhar e morrer sob gritos de agonia extrema. O que já me deixa com poucos...

Podia acabar este desabafo com um "eu consigo escrever melhor que aquilo!" e colocar, como prova, um link para um outro projecto que eu tenho, mais underground, de textos de cariz mais picante. Todavia, como poderíeis apontar e bem, ele está cheio de chuchu (ou tão cheio de chuchu como um escritor em Portugal pode ter), enquanto eu não passo de um gajo com uma fanbase exponencialmente reduzida (se é que existe, de facto).

Touché, meus caros. Touché.

música: Airwave - Candy of Life
disfunção original de Rodolfo Dias às 21:50
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03.06.15

ng2885781.JPG

As redes sociais são cada vez mais um cancro. A conclusão é fácil de se chegar. E chega-se lá por muitos lados.

Nestes últimos dias, por esse Facebook surgiu uma corrente de defesa de animais. Nada de novo, pois então: hoje em dia é das coisas que mais surge, para além de lojas de chineses, lojas de indianos e igrejas evangélicas. Também não vejo nada contra, afinal de contas, pois os animais não têm culpa que o ser humano seja um bicho cruel e incapaz de viver em sociedade com outros (nem os da própria espécie, quanto mais os das outras!).

A grande revelação é por ver que esta corrente de defesa de animais é em prole... dos caracóis. Dessas criaturas sentientes que sofrem horrores dentro de uma panela com molho a ferver e são cozidas vivas e metidas aos magotes dentro de travessas para serem depois chupadas para fora das suas cascas ou retiradas dela com recurso a alfinetes ou palitos. Sim, há pessoas que se indignam com o facto de haver outras pessoas que se deliciam com esse petisco, podendo passar tardes inteiras de roda de uma travessa deles e a abanhá-los em cerveja. E, vai daí, toca de reunir esse grupo de pessoas e tirar fotos com cartazes a perguntar "Gostava de ser cozido vivo? Ele também não!", acrescentando uma foto de um caracol, como que para gerar empatia ao público em geral, de olharmos para aquelas criaturinhas tão dóceis e ternurentas e termos dó de as comermos com torradas e cerveja.

Acho que já peca por tardia esta campanha; tenho até algumas sugestões para os seus autores, com vista a animais que também merecem campanhas do mesmo género, com slogans e tudo:

  • "Você gostava de ser esmagado com uma pancada? Ela também não!", com foto de uma mosca;
  • "Você gostava de ser apertado entre dois dedos? Ela também não!", com foto de uma carraça;
  • "Você gostava de ser envenenado? Ela também não!", com foto de uma lagarta;
  • "Você gostava de levar com produtos nocivos para a sua saúde? Ela também não!", com foto de uma pulga;
  • "Você gostava de levar com sprays repelentes? Ele também não!", com foto de um mosquito.

Se formos a ver bem, todos estes cinco exemplos dados são de animais sentientes, certo? Todos eles estão vivos, portanto sentem, certo? Então não nos devemos proteger contra eles porque, afinal de contas, estamos a matar animaizinhos indefesos apenas pelo nosso bem-estar, para não estragarem as nossas coisas ou não se alimentarem de nós. Deveríamos, isso sim, deixar que todos eles subsistam, pois não temos o direito de interferir com eles, certo?

Bom.

Não sou grande fã de caracóis, até passo bem sem os provar, mas tudo isto me parece de um limite absurdo. Há tanta coisa com que se indignarem, vão-se meter agora com os petiscos da malta? O que vem a seguir, manifestações no Terreiro do Paço contra a ingestão dos tremoços, por a planta que os dá ser essencial para o eco-sistema das abelhinhas (nem sei se são ou não)? Invasões de cafés por lá se consumir salada de orelha de porco? Linchamentos por se vender pica-pau, que, para além de ser carne, tem nome de ave e tudo?

Aqui chegamos à frase com que se começou este texto: as redes sociais são cada vez mais um cancro. E não há maneira de acabarem com ele...

disfunção original de Rodolfo Dias às 17:23
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